Entrevista do Mês

 

Peso e qualidade genética

Ele é o homem que ajudou a cidade de Camapuã, no estado do Mato Grosso do Sul, a ganhar a fama de capital do bezerro de qualidade. Hoje, vende animais hiperprecoces que chegam a valer mais de R$ 2.000,00, mesmo se tratando de gado comercial. Falamos do veterano e carismático nelorista Rubens Catenacci, que nos dá importantes dicas de como produzir um bezerro zebu puro de qualidade diferenciada.

Adilson Rodrigues adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Sr. Rubens, conte um pouco da história da Fazenda 3R

Rubens Catenacci - A Fazenda 3R iniciou as atividades em 1984, em Itararé/SP. Cinco anos depois, transferimos a propriedade para Figueirão/MS, onde começamos a produzir gado de corte em alta escala. Atualmente, a fazenda possui 7.600 hectares produzindo 3.000 bezerros e 200 reprodutores Nelore PO, com o processo de produção alicerçado nos pilares da genética, manejo e nutrição. Tudo começa com a genética, que deve ser confiável e, no nosso caso, baseada na grande matriarca Badalada da 3R. No ano de 1984, quando comecei a criação de gado PO em São Paulo, adquiri uma vaca Zina da BG, que, em 1987, já na areia santa do Figueirão, pariu a grande Badalada, matriz que começou a fazer história na raça Nelore com as suas progênies, sempre premiadas nas pistas e, consequentemente, bem valorizadas nos leilões. A Fazenda 3R, no Figueirão, tem o foco voltado para a produção de bezerros Nelore comerciais de qualidade e, aí, mais uma vez, a grande Badalada fez a diferença. Hoje, quase a totalidade dos animais produzidos tem o sangue dela.

Revista AG - Mas o manejo também é um grande diferencial da propriedade?

Rubens Catenacci – Esse é o segundo pilar para o processo de produção dos bezerros de qualidade. Na Fazenda 3R, existem tecnologias simples e funcionais que dão um resultado excepcional na produção desses animais diferenciados, com destaque aos pastos rotacionados, à equipe de campo e à sanidade do rebanho, entre outros importantes fatores. O terceiro pilar é a nutrição, cuja dieta é à base de pastos da variedade Piatã, o creep-feeding com a nossa fórmula antes exclusiva e os investimentos na tecnologia de integração lavoura-pecuária, utilizada para melhorar a condição de alimentação desses bezerros.

Revista AG - Como é para o senhor ostentar a fama de produzir o melhor bezerro Nelore do Brasil?

Rubens Catenacci - A palavra não seria ostentar. Nosso objetivo é, sim, fazer um trabalho que seja modelo na produção de bezerros de qualidade para os demais pecuaristas. Acredito que o que eu tenha feito de melhor foi ter sido o pioneiro nesse movimento de divulgar a qualidade dos bezerros de Camapuã e da Figueirão. Sempre gostei de divulgar o meu trabalho. Creio que, dessa maneira, desperto em outros produtores o interesse da produção de bezerros de boa qualidade.

Revista AG - E qual foi o papel do Leilão do Fazendeiro nessa evolução da qualidade do bezerro no Mato Grosso do Sul?

Rubens Catenacci - O leilão do Fazendeiro, realizado em Camapuã, é um remate de competição entre os produtores, no qual o melhor lote de bezerros é premiado. Foi quando eu comecei a procurar um manejo mais eficiente e que fizesse os meus bezerros serem campeões. E como sempre busquei ser o melhor produtor de bezerro nesse leilão, evoluí e inovei o meu manejo, chegando hoje a esse manejo ideal de creeprotacionado.

Revista AG - O que um bezerro Nelore de corte precisa ter para ser considerado de qualidade?

Rubens Catenacci - Principalmente, ter qualidade de carcaça, com bom volume de posterior, onde estão as carnes nobres do boi, além de ser hiperprecoce no abate. Temos produzido bezerros com peso entre 340 e 350 quilos.

Revista AG - O senhor também é o primeiro pecuarista do Brasil a abater bezerros Nelore de dez meses de idade?

Rubens Catenacci - Fomos os primeiros a fazer um abate com bezerros Nelore para provar à pecuária nacional que esse zebuíno também é precoce. Existe um mito na maior raça do Brasil que o mesmo é tardio e bravo e provamos o contrário, com um abate técnico supervisionado pelo Eduardo Pedroso, hoje um dos diretores do Frigorífico JBS. No Youtube (www.youtube.com) tem o vídeo desse trabalho. Mostra todas as etapas do processo e comprova uma realidade que eu tenho aqui na fazenda e que pode ser obtida em qualquer outra situação. Os animais apresentaram carcaça de extrema qualidade, com rendimento acima de 58%.

Revista AG - Homogeneidade do lote é realmente um fator que ajuda a valorizar os animais? Explique.

Rubens Catenacci - Tudo que é padronizado tem a sua merecida recompensa. Sempre digo que tenho uma indústria para produção de bezerros e os mesmos precisam ser padronizados. Quando se mostra volume e padronização, você consegue, com certeza, uma maior valorização no preço.

Revista AG - Por que a decisão por fazer um abate técnico de animais jovens?

Rubens Catenacci – Em toda a desmama gerada aqui na fazenda fizemos a ultrassonografia de carcaça, sempre apontando animais prontos para o abate. Então, em 2011, resolvemos realizar esse abate técnico para comprovar essa realidade e o resultado foi ainda acima do esperado: uma carne de extrema qualidade e com padrão gourmet internacional.

Revista AG - Qual foi o desempenho dos animais em vida e quais foram as condições de alimentação?

Rubens Catenacci - Os bezerros da 3R sempre tiveram um desempenho de ganho de peso entre 800 e 1.200 gramas/dia, devido ao manejo do creeprotacionado que desenvolvemos aqui. A alimentação é o leite da mãe, o capim e o fornecimento de uma média de 500 g/dia por animal da ração desenvolvida por nós, cuja fórmula antes era exclusiva.

Revista AG - E verdade seja dita, hoje quem tem bezerro bom para vender está sorrindo à toa, não é?

Rubens Catenacci - O momento é ótimo para a cria. A valorização era esperada há muito tempo, mas para quem produz qualidade o resultado ainda é maior. Sempre digo que não adianta cortar despesas, precisamos é aumentar a receita, e isso só é possível quando se aumenta a qualidade.

Revista AG - Até quando o senhor prevê a valorização dessa categoria?

Rubens Catenacci - Com certeza, essa valorização permanecerá por um bom tempo, devido ao abate de muitas matrizes que ocorreram nos últimos anos e à diminuição do rebanho provacada pelo avanço da agricultura e das florestas. Hoje, não se tem essa mercadoria no mercado, principalmente, o bezerro de qualidade.

Revista AG - Quantos bezerros a Fazenda 3R disponibiliza ao mercado atualmente? Para quais estados eles estão seguindo?

Rubens Catenacci - Ofertamos 3.000 bezerros de corte e já vendemos para todos os cantos do Brasil. A procura por nosso gado é muito grande. Até mesmo os países vizinhos estão querendo negociar conosco.

Revista AG - A Fazenda 3R criou uma fórmula até pouco tempo atrás exclusiva. O que seria o “creeprotacionado”?

Rubens Catenacci - O creeprotacionado é um batismo que demos a um sistema que adotamos para o manejo dos nossos bezerros. É um pasto rotacionado, no formato de pizza, com dez piquetes iguais. No centro, colocamos uma praça de alimentação e um cercado para induzir os bezerros a consumirem, em torno de três horas diárias, 500 gramas/dia de uma ração desenvolvida por nós mesmos. A partir de agora essa ração está disponível para comercialização em todo o Brasil e foi batizada de Confinatto 3R.

Revista AG - Quais têm sido os índices de produtividade obtidos pelo rebanho nesse sistema?

Rubens Catenacci - Os índices produtivos são vários, e não específico à dieta em si. Para o ciclo do capim, é maravilhoso, para a taxa de lotação, também. Às vacas, proporciona maior índice de prenhez e elas também ficam mais dóceis. Agora, os bezerros têm ganho de peso 30% superior e ficam homogêneos no lote.

Revista AG - Em média, qual tem sido o preço obtido com esses animais?

Rubens Catenacci - Neste ano já começamos a comercializar os nossos bezerros, fizemos média de R$ 2.130,00 no leilão 3R, que foi realizado dentro da programação da Expogrande.

Revista AG - Entretanto, imagino que um bezerro Nelore hiperprecoce deva ter um custo de produção mais elevado...

Rubens Catenacci - Realmente, ele tem custo mais elevado, mas o ganho gerado por ele também é muito superior ao de um bezerro normal. Como disse anteriormente, precisamos é aumentar as nossas receitas e não diminuir o custo de produção.

Revista AG - Hoje, qual é a média de peso dos bezerros na região aos dez meses de idade?

Rubens Catenacci - Já alcançamos uma média 300 kg a essa idade.

Revista AG - Em 2011, o senhor planejava abater bezerros em grande escala. Esse projeto vingou?

Rubens Catenacci- Planejamos, mas devido à grande escala que a indústria solicitou, recuamos nesse projeto, todavia a tendência é voltar com os planos futuramente.

Revista AG - Qual o maior prêmio ao se produzir um bezerro diferenciado? Seria só preço mesmo?

Rubens Catenacci - Além do lado econômico, o maior prêmio é a satisfação em contribuir para uma pecuária eficiente e moderna no Brasil, que já alimenta milhões de pessoas.