Caprinovinocultura

 

Alimentos alternativos

Opções nutritivas e de custo mais baixo são importantes em épocas de escassez de pastagens ou quando a ração encarece a produção

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

Nem sempre o criador tem condições de oferecer a alimentação mais adequada ao rebanho. Fatores como o alto custo do milho e da soja, que são os componentes da ração, e a escassez de pastagens em determinadas épocas do ano podem limitar a oferta nutricional na propriedade. Nessas horas, é importante saber quais são as opções mais viáveis para substituir ingredientes ou complementar a dieta dos animais.

O professor Harold Ospina Patino, do Curso de Zootecnina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estuda a viabilidade de diferentes alimentos que, muitas vezes, podem ser encontrados com facilidade e manejados de forma simples.

É o caso, por exemplo, da mandioca. O produtor pode utilizar a parte aérea ou folhagem (caule e folhas), que é fonte de proteína e fibras. A raiz também pode ser aproveitada. “O amido presente na raiz é interessante, e equivale a 87% da energia que encontramos no milho”, detalha o zootecnista e doutor em produção e nutrição animal.

A mandioca precisa ser manipulada antes de ser oferecida aos animais devido aos riscos da toxicidade do cianeto. O professor explica um exemplo de aproveitamento e detalha o passo a passo do processamento: primeiro, o indicado é fazer a lavagem das raízes para retirar o excesso de solo ou barro; em seguida, picar as folhas e raízes. “Para isso, pode ser utilizada uma picadora de mandioca ou uma picadora de pasto. Quando as quantidades são pequenas, inferiores a 100 quilos, pode ser usado um facão”, descreve.

Na sequência, a secagem do material pode ser feita com exposição ao sol diretamente durante dois ou três dias. Depois disso, os animais podem receber o alimento.

O processo de silagem é mais complexo, já que o produto poderá ser armazenado por mais de seis meses. O recipiente que será utilizado pode ser bombona plástica, bolsa plástica ou silo convencional (tipo trinchera, bunker ou torta). Depois de picar o material, o recomendado é deixar em repouso ao sol ou ao vento durante pelo menos três horas. A silagem deve ser compactada adequadamente para evitar a entrada de oxigênio, e o período de conservação antes do início do uso deve ser de, no mínimo, 30 dias. “Dependendo da qualidade da silagem, o consumo pode ser entre 1,5% e 2% do peso vivo”, relata Patino.

Hidrólise da cana

A folha da batata-doce, a cana-de- -açúcar e o sorgo são outros alimentos citados pelo professor para complementar ou substituir a alimentação convencional. “A cana é uma alternativa econômica interessante e de alto valor energético. Nenhuma outra planta produz tanta massa verde como a cana, que gera entre 70 e 100 toneladas por hectare”, analisa o professor da UFRGS.

Pesquisador Mauro Bueno, do IZ: ao optar por ingredientes alternativos, é fundamental que o produtor busque orientação para formular a dieta mais adequada ao perfil do rebanho

O indicado para a alimentação animal é realizar a hidrólise da planta para melhorar a digestibilidade e facilitar o manejo pela possibilidade de armazenamento. Para hidrolisar 100 quilos de cana, a planta deve ser picada em partículas de 2 a 5 centímetros. Para fazer a mistura, o produtor vai precisar de 1,5 quilo de cal hidratada e 6 litros de água. Essa mistura deve ser adicionada aos poucos à cana. O recomendado é revirar o monte com uma pá até que a cana fique da cor amarela. O procedimento permite o armazenamento por até cinco dias.

Em São Paulo, por exemplo, o ponto de colheita da cana coincide com a época seca, o que facilita ainda mais o uso pelos criadores, lembra o zootecnista Mauro Sartori Bueno, pesquisador do Instituto de Zootecnia (IZ) da Secretaria de Agricultura do estado.

Dietas com o uso da cana-de-açúcar ou aquelas em pastagens diferidas devem ser complementadas com a mistura múltipla, ou sal proteinado. O pesquisador do IZ fornece um exemplo de fórmula que pode ser seguida: 25% de sal mineral para ovinos + 5% de sal branco + 10% de ureia + 60% de farinha de soja. “Isso vai ajudar a manter uma nutrição equilibrada até a recuperação da pastagem ou nas situações em que os ovinos estão ingerindo alta quantidade de fibras e pouca proteína”, justifica Bueno. A mistura é de consumo autorregulável pelos animais e deve ser mantida em um local protegido da chuva.

Silagem da mandioca permite que o produto seja armazenado por mais de 6 meses

Resíduos

Os meses mais frios do ano coincidem com a época seca no Brasil Central e de maior ocorrência de chuvas no Sul, onde as ovelhas estão em fases de gestação e parição. Essas situações normalmente significam pastagens de baixa qualidade e necessidade de suplementação para os rebanhos.

O zootecnista Mauro Bueno observa que os resíduos de cereais como trigo, milho, centeio e arroz são ricos em energia. Já os resíduos da soja têm alto valor proteico. “São opções de custo mais baixo em comparação com a ração convencional”, resume.

Subprodutos e sobras da indústria cervejeira e das fábricas de suco também são interessantes para a suplementação. Nesses casos, é importante que o produtor avalie se vale a pena investir. “A polpa cítrica desidratada tem excelente qualidade, mas um bom retorno econômico virá se o produto tiver preço de até 70% do valor do milho”, orienta o pesquisador.

Cuidados maiores devem ser tomados no caso da polpa cítrica úmida, que precisa de armazenamento e conservação especial. “O material deve ser ensilado com compactação e vedação para que não fique exposto à entrada de oxigênio”, acrescenta Bueno. O custo do composto úmido também é mais alto e o criador deve fazer a conta multiplicando por cinco seus gastos, já que apenas 20% é matéria seca.

O especialista aconselha que, em todos os casos de utilização de ingredientes alternativos na alimentação, é fundamental que o produtor busque informação e consulte orientação profissional para formular a dieta mais adequada ao perfil do rebanho.