Brasil de A a Z

 

Paradigmas para a seleção do Nelore

Compreendendo a história (Parte II)

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Amigos agropecuaristas, é mês de maio, e embora as chuvas se prolonguem, o capim deve começar a secar em grande parte do país. Neste mês, mais uma tradicional Expozebu acontece em Uberaba, a maior e mais importante exposição de zebuínos do mundo segue emblemática e confunde-se com a riquíssima história do zebu brasileiro, que vale a pena ser conferida no museu do zebu, onde se encontram fotos, objetos, filmes e documentos sobre essa exuberante história do gado que veio de longe para revolucionar a bovinocultura brasileira.

Para fazer o link com a primeira parte do artigo, estávamos narrando o momento das pistas na década de 1980, interpretando a fase que chamei de fundo do poço, em termos de modelo animal, quando Inca é Grande Campeão Nacional em Uberaba, e a dinâmica dos julgamentos enxerga que precisa rever conceitos com olhos para novas mudanças.

Até o momento, falamos em pistas de julgamento como grande referência na seleção da raça Nelore, época em que os grandes campeões eram disputados pelas centrais de Inseminação Artificial (IA) e tornavam-se expressivos multiplicadores de genética.

Nas décadas de 1980 e, principalmente 1990, os programas de melhoramento genético animal surgiram no Brasil, sistematizando a coleta de dados e apresentando modelagens estatísticas capazes de comparar animais criados em diferentes fazendas, regiões e sistemas de produção.

Ainda na década de 1980, foi homologado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) o primeiro programa para emissão de Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip), que qualifica animais geneticamente superiores para serem comercializados como reprodutores, que os isenta do pagamento de impostos em trânsito e não tem ligação com associações de raça.

Com o desenvolvimento dos programas existentes e surgimento de programas novos, as Diferenças Esperas nas Progênies (DEPs) popularizaram- se a partir do século XXI e um número maior de características passaram a ser mensuradas, como Pesos ajustados para diferentes idades, Perímetro Escrotal, Habilidade Maternal, Escores Visuais, Características de Carcaça avaliadas por ultrassonografia, Período de Gestação, Idade ao Primeiro Parto, Stayability (capacidade de permanência no rebanho), Produtividade Acumulada, Temperamento, entre outras que estão distribuídas em pelo menos dez programas de melhoramento oficializados pelo Mapa (PMGZ, ANCP, GenePlus, IZ, CFM, DeltaGen, Paint, Nelore Produção e Qualitas).

Nas décadas de 1990 e 2000, surgiram indícios de que os reprodutores campeões de pista não coincidiam com aqueles que se destacavam em performance a campo e consequentemente em programas de melhoramento genético que ponderam características funcionais, e os grandes campeões já não eram tão cobiçados pelo mercado de sêmen como em tempos atrás. Tal conceito ficou ainda mais evidente a partir de 2010, quando as estatísticas das Centrais de IA evidenciavam grande domínio nas vendas de touros selecionados por avaliações genéticas em detrimento daqueles originários dos resultados em pistas.

Contrapondo o “fundo do poço” - com o Inca -, na busca de engrossar aquele gado refinado, foram utilizados touros mais carcaçudos nos acasalamentos de cocheira e reprodutores como 1646 da MN e Ganhoso do IZ entraram em acasalamentos de matrizes “sangue azul”, fato que, para muitos, era considerado verdadeira heresia.

Como consultor, avaliando rebanhos em diversas regiões do Brasil e com diferentes focos de seleção, fica claro que existem linhagens que desempenham bem na pista, mas que, quando submetidas a sistemas de produção a pasto, deixam a desejar, perdendo, principalmente, em performance reprodutiva, devido à maior necessidade de mantença e consequente perda de condição corporal.

A continuação dessa prosa fica para o próximo mês. Já em plena seca e preparativos para o início do período de maior oferta de touros no mercado, vamos tratar de contextualizar o momento em que vive a pista e as avaliações, com o título “Dilema das pistas e dos programas de melhoramento”. Forte abraço!