Genética

 

Vendas de sêmen crescem 4,5%

Asbia desmembra setores de comercialização, exportação, importação e prestação de serviços no relatório anual de produção

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Março marcou o mês de divulgação do esperado compilado das vendas anuais de sêmen bovino contabilizadas pela Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). Para cálculo dos balanços, a entidade utiliza um indexador próprio, chamado de “Index Asbia”, correspondendo a 92% do mercado nacional. Algumas importantes mudanças foram promovidas neste ano, de forma a permitir uma análise mais transparente dos dados, conforme aponta Carlos Vivacqua Carneiro da Luz, presidente da entidade. O relatório foi segmentado em três partes distintas: uma leva em conta o sêmen para uso imediato, outra considera a parcela coletada pelas centrais a pedido do próprio criador (prestação de serviços), cujo Ministério da Agricultura proíbe a venda; e, por último, a parte destinada para exportação e importação.

Segundo os moldes antigos, a comercialização de sêmen em 2014 registrou 13.609.311 doses, com crescimento de 4,5% perante as 13.024.033 coletadas em 2013. Entretanto, o total efetivamente reservado para negociação entre centrais e pecuaristas soma apenas 12.035.332 doses, após a exclusão das categorias anteriormente mencionadas. Assim, ao contrapor 2014 e 2013, o produtor se surpreenderá com uma “estranha” retração de 8%. De 2013 para o ano subsequente, conforme o presidente da Asbia, o sêmen das raças de corte comemora um incremento substancial de 51,5%, saindo da casa de 3.920.523 para 5.938.452 doses, enquanto as raças leiteiras ficaram com um salto positivo de 5,7%, progredindo de 1.532.045 para 1.619.284 doses.

Nas raças bovinas carniceiras, o Nelore “lidera” o ranking de produção, totalizando 3.426.296 doses (Padrão+Mocho), seguido pelo Angus (Abeerden+Red), com 1.205.162 doses; e o Senepol figurando em terceiro lugar, com 240.591 doses, mostrando o vigor do adaptado das Ilhas Virgens, que triplicou a participação no intervalo de um ano. Vale lembrar que entram nesse ranking somente o efetivo de sêmen produzido para geração dos estoques das centrais (uso imediato) e o volume referente à prestação de serviços do criador. O montante pertencente à importação foi omitida, o que pode causar confusão no cálculo de qual raça produziu mais sêmen. No ano passado, a manchete era o Angus ter superado o Nelore, todavia, isso ocorreu ao se agregar às vendas nacionais do taurino as massivas importações, que sozinhas atingiram incríveis 2.386.129 doses.

Coisa que não veremos no relatório 2014. Ao menos por enquanto, a Asbia não divulgará o ranqueamento das importações de sêmen individualizadas do relatório 2014; apenas o total geral importado, como será visto a seguir. No entando, a Associação Brasileira de Angus soltou nota em seu jornal Angus News informando a robusta comercialização de 3.877.994 doses (Aberdeen + Red) em 2014.

Nas raças leiteiras, destaque para o Girolando, que alcançou 774.879 doses, ultrapassando a raça-mãe (Gir Leiteiro), que obteve 629.150 doses, e o Holandês, atingindo 174.383 doses. “O Girolando tem um grande potencial de crescimento, basta melhorar a oferta de animais avaliados. Além disso, é uma raça sintética que responde melhor à alimentação, comparada ao seu concorrente direto [Gir Leiteiro]”, avalia Vivacqua.

Tabela 1 - Produção de Sêmen - Corte

O setor de prestação de serviços, ou seja, a coleta utilizada para uso próprio do criatório, movimentou 1.095.238 doses no corte, um acréscimo de 6,2% sobre 2013, e no leite houve um recuo de 54,8%, mal chegando a 75.300 doses - em 2013, foram 166.494. Criadores de Nelore e Angus fizeram os maiores pedidos de coleta às centrais, com 652.075 (Padrão+Mocho) e 145.816 doses (Abeerden+Red), respectivamente. No leite, as maiores encomendas partiram do Gir Leiteiro, em primeiro lugar com 59.268, e do Girolando, em segundo, com 8.062 palhetas.

Tabela 2 - Grupamentos raciais divididos em corte/leite zebuíno/taurino

O segmento de exportação evidenciou o aumento dos embarques de genética leiteira, com menção especial para Índia, que finalmente pôde adquirir adquirir sêmen Gir Leiteiro para melhoramento do plantel nativo, representando 1% do mercado. O Brasil exportou 112.787 palhetas ao todo. O Gir Leiteiro (Padrão+Mocho) liderou as remessas, com a marca de 65.145 unidades. No encalço, está o Girolando, com 42.528. A Colômbia comprou 82% do sêmen ofertado pelo Brasil e o Equador, 12%. “Isso mostra que nosso país se tornou um excelente fornecedor de qualidade genética, apto a melhorar o plantel de qualquer país”, ressalta o presidente da Asbia.

No corte, a história foi bem diferente. Amargou um déficit na balança comercial na ordem de 25,6%. Apesar do número assustador, Vivacqua ameniza o resultado pelo fato de a base numérica produtiva ser pequena: “um ou dois negócios que envolvem grandes volumes de sêmen que deixam de ser concretizados causam grande impacto no relatório”. Angus e Bonsmara foram as raças mais solicitadas, com remessas respectivas de 6.750 e 4.077 doses. Já no tocante às importações, Estados Unidos, Canadá e Holanda continuam a ser os grandes fornecedores de genética aos brasileiros. No leite, eles respondem por 53%, 32% e 11% - nessa ordem - de um mercado de 4.237.648 doses, elevação de 14% em relação ao ano anterior. No corte, EUA e Canadá respondem sozinhos por gordas fatias de 72% e 17% de um total de 3.522.862 doses.

Uma novidade no relatório da Asbia também é que, a partir de agora, haverá análises dos agrupamentos raciais, divididos em Corte e Leite Zebuíno e Taurino. Corte Taurino movimentou em 2014 exatas 4.327.362 doses, evoluindo 6%, e o Corte Zebuíno despencou 24%, retraindo de 3.329.144 para 2.537.242, assim como ocorreu no Leite Zebuíno, com queda de 28% e total de 926.283, 35.448 doses a menos que em 2013. Leite Taurino caiu 2%, para 3.995.058 doses. “Esse buraco entre Corte Zebu e Corte Taurino ocorreu em virtude da nova metodologia implantada, na qual confrontamos 2014 com a análise ‘agregada’ de 2013”, esclarece Vivacqua.

“Se você ponderar o corte 2013 no método atual, o mercado movimentou 7,6 milhões doses, considerando venda e prestação de serviço (PS). Mas para comparar friamente às 7 milhões de doses de 2014 do novo relatório, ainda teríamos de acrescer mais 1 milhão de doses da PS que ficou de fora. Então, não caiu. Retiramos o PS porque não sabemos o que acontece com ele”, complementa Márcio Nery Magalhães Júnior, diretor Financeiro e Operacional da Asbia.

Estados inseminadores

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são as praças que mais utilizam a tecnologia de inseminação artificial, até porque estão entre os maiores rebanhos bovinos do Brasil e dispõem do maior volume de fêmeas em idade de reprodutiva. Os pecuaristas mato-grossenses respondem por 19% e os sul-mato-grossenses, por 18%. Na sequência, aparecem os goianos, com 11%, e os paraenses e gaúchos empatados com 10% cada um. Isso em gado de corte. Na pecuária leiteira, o líder absoluto do ranking continua sendo o estado de Minas Gerais, com 28% de participação, superando os 17% do Rio Grande do Sul e 14% do Paraná.

Top 5 - Vendas/Cortes

Interessante observar que Santa Catarina já figura entre os principais vendedores de sêmen de raças leiteiras no País, em quarto lugar, com 13%. “O futuro do leite está no Sul. Minas tem a expertise, mas quando eu avalio a movimentação das indústrias, vejo que elas estão se concentrando no Sul. É uma região que possui clima favorável, tecnologia, mão de obra, apoio governamental, é livre de aftosa sem vacinação e conta com uma oferta maior de players”, analisa Vivacqua. Goiás, por sua vez, caiu para quinto, com apenas 7% das vendas. “Goiás, em especial, recebeu um forte aporte financeiro para aquisição de matrizes, resultando na entrada de um grande volume de animais, oriundos principalmente de Minas Gerais, mas faltaram extensionistas para mostrar como trabalhar essas vacas, impactando negativamente os números”, esclarece Vivacqua.

Representantes das centrais de inseminação artificial reuniram-se na Sociedade Rural Brasileira, em São Paulo

Perspectivas

Atualmente, são utilizadas 1,8 dose de sêmen por vaca no Brasil, ao custo médio de R$ 15 a R$ 22/dose para raças de carne e entre R$ 25 e R$ 30/ dose para as de leite. Doze por cento do rebanho nacional de matrizes é inseminado. “A inseminação artificial cresceu de 8 para 12%, mas é ainda muito aquém do potencial que a tecnologia possibilita”, reclama o diretor Financeiro e Operacional da Asbia. “A IA responde por apenas 2% do custo de produção, é extremamente barata. Sêmen é o único insumo que deixa residual entre as gerações. Não lembro de outra tecnologia que gere tantos ganhos”, complementa Vivacqua, lembrando que sem ela não haveria os testes de progênie.

O principal obstáculo é a carência de extensionismo, hoje suprido de forma insuficiente pelas próprias empresas. Outro indicador do avanço da tecnologia na pecuária brasileira são as vendas de botijões de nitrogênio, que cresceram 6,4%, saltando de pouco mais de 7.400, em 2013, para 7.900 unidades em 2014. “Boa parte foi adquirida por novos usuários da tecnologia”, conclui Vivacqua. A IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) ajudou a alavancar o mercado, mas mesmo ela, que tem a vantagem de dispensar a observação de cio, já enfrenta a carência de mão de obra, pois ocorre concentrada em um único período do ano e é capaz de gerar mais de 500 inseminações/ dia.