Raças

 

POLIVALENTE

Produção de carne de qualidade a baixo custo tem sido a base que sustenta o Brahman no Brasil e em outros 70 países

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

Recém-chegado em solo brasileiro, o zebuíno de origem norte-americana tem na adaptabilidade a característica que conquistou os brahmistas de todo o mundo. O animal consegue sobreviver com destreza ao clima tropical, bem como produzir a carne ansiada pelo mercado.

Como explica o diretor-executivo da Associação dos Criadores de Brahman do Brasil (ACBB), Rodrigo de Moraes Rodrigues, “a raça tem como berço o estado americano do Texas, que é árido, assim como no nordeste Australiano, onde o Brahman é largamente difundido; além da Colômbia, que é conhecida por seus altos índices pluviométricos. Em todos esses locais o animal se adaptou e se tornou a opção produtiva de carne de alta qualidade, com baixo custo de produção e retorno financeiro garantido”, diz.

Segundo o diretor-executivo, a pecuária moderna exige um animal extremamente adaptado e produtivo, que seja funcional, precoce e principalmente fértil. Moraes foi recentemente empossado ao cargo na ACBB e possui larga experiência internacional, desenvolvendo projetos pela Associação Brasileira de Criadores de Zebu.

“Iremos mostrar ao Brasil e ao mundo a qualidade do Brahman, realçando principalmente sua produtividade. Vamos trabalhar junto às Provas de Ganho de Peso (PGP) da ABCZ e, alguns testes de preformance renomados, para identificarmos e oferecermos animais melhoradores aos pecuaristas”, afirma Moraes.

A polivalência da raça na produção de carne de qualidade com baixo custo tem sido a base que sustenta o zebuíno não apenas no Brasil, mas no mundo

A confiança do executivo vem das características que o animal apresenta como ótima morfologia para produção de carne: com tórax profundo, costelas bem espaçadas e um notável volume gastroinstestinal, o que denota boa capacidade respiratória-digestiva, fundamento imprescindível a um bovino produtivo.

De acordo com a ACBB, os índices de fertilidade e longevidade do Brahman são excepcionais entre os zebuínos. Os machos, antes dos dois anos, já começam a cobrir a vacada, da mesma forma que a vida útil de muitas vacas superam os 20 anos, ainda parindo.

Segundo Moraes, a média de abate do Brahman PO é de 28 meses, sendo que a média nacional é de 37,5 meses. “Esta antecipação no abate é de no mínimo nove meses para o animal puro. E também é possível agregar-se 128,76 kg a mais no peso final dos animais”, diz.

Nos cruzamentos com Nelore, os machos confinados são terminados aos 24 meses e com média de 545 kg. Animais em regime exclusivo de pasto são abatidos aos 30 meses e média de 530 kg. Ambos com ótima cobertura e rendimento de carcaça. Os abates técnicos de meio-sangue Brahman e de puros comprovam que o rendimento de carcaça ultrapassa 55% e a qualidade da carne obtida é bem classificada nas tabelas de cortes comerciais.

Para o criador da Fazenda SEG Brahman, de Araçatuba/SP, Manoel Afonso de Almeida Filho, os cruzamentos com vacas aneloradas e vacas F1 têm se mostrado satisfatórios, tanto que a demanda por touro vem crescendo e a recompra vem se repetindo pelo mesmo pecuarista, algo que confere a qualidade da genética oferecida.

“Eu acredito que o Brahman está contribuindo muito para a pecuária e nós estamos trabalhando com a seleção da raça há nove anos, com o intuito de oferecer animais geneticamente comprovados na pecuária intensiva”, comenta Manoel de Almeida.

Outro fator que atrai olhares nos 70 países em que o Brahman transita, é a rusticidade frente às variáveis climáticas. A raça é encontrada em regiões muito frias e muito quentes, desde lugares que nevam até outros com calor escaldante e umidade. Algo que no Brasil, com exceção à presença de neve, tem de sobra, garantindo a presença do zebuíno em 22 estados.

Equilíbrio Térmico

Segundo a ACBB, a raça possui uma termorregulação que permite adaptação confortável onde quer que habite. A sua pigmentação de pele, conciliada com as formas e quantidades de glândulas sudoríparas e sebáceas, além do número de pelos por centímetro quadrado, entre outras características, garantem essa qualidade.

Pesquisando sobre essa peculiaridade, a professora da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), Débora Andréa Façanha, recebeu uma demanda de criadores da Fazenda Morro Alto, em Uberlândia/MG, que desejam identificar características que atestem cientificamente o que na prática a capacidade do Brahman parece sinalizar, ou seja, a boa adaptabilidade ao bioma do Cerrado.

“Eu já havia realizado trabalhos científicos avaliando adaptabilidade de vacas leiteiras ao sertão central do Ceará, sempre enfocando animais a serem criados a campo. No caso do zebuíno, resolvemos incluir vários outros componentes no que chamamos de avaliação de termotolerância a campo”, explica Débora Andrea Façanha.

A professora Débora realiza um trabalho de adaptabilidade do Brahman no cerrado

De acordo com a especialista, os criadores de bovinos de corte no Brasil priorizam a seleção de animais capazes de manterem o máximo possível seu bom desempenho, mesmo em condições extremas. Uma das características desejáveis é que o animal seja capaz de se expor a elevados níveis de radiação e ainda assim manter a homeotermia, que é a temperatura corporal normal.

“Para conseguir esse equilíbrio térmico, os animais utilizam mecanismos que os possibilitem perder calor (termólise) ou aumentar a produção de calor endógeno (termogênese), quando necessário. A grande vantagem de se selecionar animais adaptados ao ambiente climático é que os mesmos não desviarão energia para os processos de termólise e essa será direcionada para o ganho de peso, melhorando o desempenho dos rebanhos”, aponta a especialista.

Conforme o estudo, a necessidade de termorregulação varia fortemente com as estações do ano, que por sua vez variam entre os biomas. Assim, no caso específico do rebanho Brahman analisado, foram acompanhados, a cada dois meses, todos os tourinhos da Prova de Desempenho adotada na propriedade, os quais foram ranqueados de acordo com vários parâmetros de produtividade.

“Nós incluímos como parâmetros de termotolerância a capacidade de sudação, a temperatura retal, critérios hematológicos e hormônios da tireoide, além de características de pelame, como comprimento, diâmetro, densidade numérica e espessura dos pelos”, explica Débora Façanha.

O objetivo da professora foi buscar marcadores fenótipos de adaptabilidade que possam ser incluídos em programas de seleção. Primeiramente, identificando os animais de maior potencial e, em seguida, relacioná-los com as respostas produtivas.

As conclusões desta pesquisa revelam que os animais realizam as trocas de pelame em setembro, substituindo fios mais longos no inverno por mais curtos no verão. Algo que ocorre inversamente em março, com a chegada do inverno. Além disso, o rebanho demonstrou excelente capacidade de sudação, considerada uma das vias mais eficientes para perda de calor.

Tais características de pelame e sudação estão fortemente relacionadas com aspectos fisiológicos importantes para o bom desempenho dos animais. “A tiroxina (hormônio tireoidal) caiu durante o calor, mas não a ponto de comprometer as outras funções relacionadas ao crescimento e desenvolvimento dos animais. Os parâmetros hematológicos mantiveram- se sempre dentro da normalidade, comprovando a sanidade do lote”, destaca a professora.

Após essa análise, os touros foram ranqueados em três grupos conforme o grau de adaptabilidade, definido através de análises multivariadas. O grupo de alta capacidade adaptativa enquadrou 39 animais, os que ficaram na média foram 11 e fechando a avaliação com 12 animais de menor capacidade.

“Esses resultados são excelentes indicativos de que estamos no caminho certo para propor um índice de seleção que inclua adaptação. O próximo passo é avaliar se o desempenho dos animais varia entre os grupos com diferentes graus adaptativos”, almeja a pesquisadora.

O projeto chamou a atenção dos especialistas internacionais tanto que a professora participou do 20º Congresso Internacional de Biometeorologia, em setembro, na cidade de Cleveland/Ohio. Segundo a professora, o evento reúne grandes pesquisadores da biometeorologia, não só animal, mas também vegetal e humana, tratando de assuntos essenciais como a redução da emissão dos gases do efeito estufa.

“O diferencial do nosso trabalho foi justamente o fato de ter sido desenvolvido a pasto, quando muitas pesquisas apresentadas foram realizadas em confinamento, ou seja, em ambientes controlados. Grande parte dos pesquisadores presentes neste tipo de evento é procedente de países de clima temperado, onde os bovinos são criados intensivamente e, por isso, a maioria das provas de adaptação apresentadas foram desenvolvidas para essas condições”, explica Débora Andrea Façanha.

A especialista reforça que no Brasil o interesse dos produtores é por animais adaptados à criação em regime de campo e, por isso, há a necessidade de buscar cada vez mais formas de avaliar o rebanho sob as condições nas quais serão criados, sujeitos às variações diárias de temperatura, umidade e radiação.

O estudo térmico é de suma importância para o desenvolvimento do Brahman e de outros bovinos no cerrado brasileiro, já que a região se estende por 25% do território nacional, com cerca de 200 milhões de hectares, englobando 12 estados, entre eles Minas Gerais, Goiás, oeste da Bahia, Mato Grosso do Sul, região sul do Mato Grosso e Tocantins.

Horizonte da Raça

O presidente da ACBB, Alexandre Coccapieller Ferreira observa o atual momento do animal como promissor, mesmo com a instabilidade política e econômica que o Brasil enfrenta. “Os preços da arroba e do bezerro estão estimulados para o criador. O mercado externo cada vez consome mais carne, além dos novos protocolos sanitários para exportação de sêmen e embriões que estão sendo abertos por nós. Ou seja, estamos trabalhando cada vez mais para atender as demandas e fechando parcerias com associações internacionais”, diz.

Para o dirigente, a raça cresce a passos largos. “Temos entrado em contato com associações fora do país e os resultados são animadores, principalmente na Austrália onde a comercialização do Brahman aumenta tanto em volume quanto em valores. Também existem diversos trabalhos científicos sendo realizados em parceria com a Beef CRC. Em breve, divulgaremos os resultados aos brahmistas”, diz Coccapieller.

De acordo com a ACBB, os índices de fertilidade e longevidade são excepcionais entre os zebuínos

De acordo com o líder da associação, a contratação do Dr. Rodrigo Moraes cria uma via direta entre o criador nacional e o mercado mundial, pois o gestor detém ampla experiência no segmento associativo, atuando há quase uma década junto ao departamento internacional da ABCZ.

A entidade vai oficializar a parceria com Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos homologado pela ABCZ nos próximos meses, além de promover dias de campo em todo território nacional, com criatórios que tenham interesse na divulgação de seu trabalho.

“Desenvolvemos projetos que devem ser anunciados no início do próximo semestre e também estaremos presentes no circuito PMGZ. Embora o mais importante seja a ExpoBrahman (na segunda quinzena de setembro), sendo um sucesso total graças ao programa “Brahman a Campo”, realizado em 2014, que repercutiu dentro e fora do país”, comemora o presidente.

No entanto, nos leilões do último ano a quantidade de fêmeas ofertadas caiu 60%, ao atingir 472 lotes. Contrapondo esses dados o criador da Fazenda SEG Brahman acredita que a grande dificuldade que os pecuaristas estão enfrentando é em virtude do alto custo do evento.

“A redução dos remates não significa diretamente que tenha ocorrido queda nas vendas do Brahman. Ou seja, nós estamos comercializando mais, não sei dizer em números, só que dentro das propriedades”, afirma Manoel de Almeida.

Conforme divulgado pela associação, os dados de animais registrados serão informados após a 81ª Expozebu. “Os registros têm crescido e estamos presentes em 22 estados, obtendo ótimos resultados por todo Brasil, especialmente no nordeste. O cenário é otimista, principalmente com os valores pagos pela arroba do boi gordo”, conclui Moraes.