Mercado

Pecuária brasileira resiste à crise

O ano começou com muitos problemas. Se por um lado o governo afirmava não haver crise no Brasil, por outro o cenário mostrou o inverso, uma situação tensa, e não há mais como abafar. Com a inflação cada vez mais alta e a economia retraída, o Brasil caminha entre incertezas. O país sofre com problemas hídricos, agravados pela escassez de chuvas ocorrida nos últimos meses, assim como escândalos de corrupção envolvendo a Petrobrás e uma onda de manifestos que se espalham pelo País.

Diante desse cenário desafiador, nos perguntamos até que ponto o agronegócio brasileiro se manterá firme. Não é nenhuma novidade que o setor encontra muitos entraves, tanto antes quanto depois da porteira. Os gargalos logísticos já são nossos velhos conhecidos, como a precariedade da malha rodoviária e ferroviária e a deficiência do transporte hidroviário. Todos esses fatores atrapalham o escoamento da produção brasileira e prejudicam a competitividade do setor, enfraquecendo a confiança entre o Brasil e seus principais parceiros. Há tempos é esperado do governo medidas e ações necessárias para reverter essa situação, mas parece que os problemas se arrastam e a solução está longe.

A paralisação dos caminhoneiros foi outra situação preocupante e que prejudicou o transporte de carga e dificultou o escoamento de produtos do agronegócio em vários estados brasileiros. O pacote de medidas oferecido pela presidência não levou ao fim de todas as paralisações. A lei sancionada pelo governo garantiu à categoria alguns benefícios, tais como pedágio gratuito por eixo suspenso para caminhões vazios; perdão das multas por excesso de peso recebidas nos últimos dois anos; responsabilidade pelo excesso de peso e transbordamento de carga recaindo sobre o contratante e não sobre o motorista. Mas uma das principais exigências, que seria a redução do valor cobrado pelo óleo diesel, não foi atendida pelo governo (apenas o congelamento do preço do combustível durante seis meses).

Diante dos entraves logísticos, o agronegócio brasileiro não está em uma situação confortável, pois a maior parte da produção do País depende do transporte por meio de rodovias. A situação é muito séria, gerando um efeito dominó, pois tudo o que depende desse tipo de transporte fica travado. Supermercados, frigoríficos, portos e outros setores ficam impossibilitados de seguir com suas atividades normalmente. Essa dependência é crítica e diante da expansão e importância do agronegócio, faz-se necessária uma melhoria nos principais sistemas de transporte do País.

Apesar de a crise econômica atingir vários setores, acreditamos que a pecuária se manterá estável e o cenário não deverá mudar no curto prazo: a alta do dólar favorece as exportações brasileiras, o bezerro continuará valorizado, pois a oferta ainda é curta devido ao maior abate de matrizes nos últimos anos, a oferta de carne no mundo está limitada e os principais concorrentes do Brasil no mercado bovino, como Estados Unidos e Austrália, enfrentam problemas com relação à seca. Enfim, todos esses fatores nos mostram que o cenário pecuário nacional deverá resistir à crise.

No entanto, existem fatores que não podem ser controlados, como o aumento do índice de desemprego, o preço dos insumos, o clima, etc. Todos esses refletem na movimentação do mercado. O desemprego acarreta na diminuição do poder de compra do consumidor, o que causa uma maior oferta de carne pela redução do consumo (quanto maior a oferta, menor o preço). Devido à alta do dólar, a tendência é o aumento do preço dos insumos, elevando junto o custo de produção.

No mercado interno, o preço da arroba mantém-se estável desde fevereiro, favorecido pela oferta curta de animais para abate. Apesar do feriado de carnaval, o consumo não foi suficiente para alavancar o preço da arroba, mantendo a referência do boi gordo (à vista) para o Estado de São Paulo no dia 16/03/15 no patamar de R$ 145,00/@. Mesmo assim, esse valor continua bom, visto que no mesmo período do ano passado a arroba do boi gordo estava sendo negociada a R$ 125,00 (à vista).

Analisando o quadro “Boi Gordo no Mundo”, no período de 16/02 a 16/03/2015, as cotações da arroba do boi gordo apresentaram baixas no Brasil, em virtude da desvalorização do real, sendo que a média registrada para o período descrito anteriormente foi de US$ 48,37. Nos Estados Unidos, também houve redução e o valor médio registrado foi de US$ 94,39. Já na Argentina e na Austrália, houve valorização, com a arroba valendo US$ 62,07 e US$ 66,00, respectivamente.

Apesar das incertezas políticas e econômicas e dos muitos desafios a serem enfrentados pelo Brasil, o cenário internacional da carne bovina permanece otimista. A aposta continua sendo no crescimento das exportações, favorecida pela grande demanda por proteína e sustentada pela qualidade e competitividade da carne brasileira. O Brasil continua empenhado em se adequar às tendências do mercado, aumentando a produção de maneira sustentável, investindo em genética e manejos sanitários.

Gradativamente, o Brasil vem retomando importantes mercados antes fechados por embargos em função do caso atípico de BSE. Recentemente, Iraque e África do Sul liberaram as importações de carne bovina brasileira. Ainda para este ano, a perspectiva é que China, Arábia Saudita e Japão também confirmem a reabertura. Outra grande perspectiva são os Estados Unidos.

Figura 1 - Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF - 16/02 a 16/03 de 2015

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), houve recuperação nas exportações com relação a janeiro, com crescimento de 1,39% em faturamento e 1,90% em volume.

O gráfico “Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF” para o período analisado, compreendido entre os dias 16/02 e 16/03/2015, mostra evolução dos preços da @ pagos a prazo nas diferentes regiões. Nos estados de SP, MG e GO, a arroba ganhou força no início de março. Nas demais praças, houve oscilação, com algumas quedas, mas a arroba mantém-se estável.

Analisando o deságio do preço do boi gordo por UF, no período de 16/02 e 16/03/2015, observamos que a média do deságio pago aos pecuaristas entre o preço à vista e o preço a prazo (30 dias) foi de 1,34%.

O preço do bezerro segue valorizado em quase todas as praças produtoras para o período analisado. No Estado de SP, o preço médio do bezerro está sendo negociado a R$ 1.250,00/cab; em MG, o bezerro subiu para R$ 1.005,63/cab; no MS, R$ 1.258,13/cab; no MT, o preço avançou para R$ 1.121,88/cab; no PA, R$ 991,88/cab; no PR, R$ 1.230,00; no RS, o bezerro foi para R$ 1.036,88,00/ cab; já em GO, o preço do bezerro caiu para R$ 1.190,00/cab.

Figura 2 - Relação de troca média - 16/02 a 16/03 de 2015

Para o boi magro, a alta também foi quase geral para o período de 16/02 a 16/03/2015, com a média da categoria sendo negociada em SP a R$ 1.916,88/ cab; em MG, a R$ 1.621,88/cab; em GO, a R$ 1.803,75/cab; no MS, a R$ 1.886,25/ cab; e no MT, a R$ 1.681,88/cab. Já no PA, caiu para R$ 1.510,00/cab; no PR, passou a valer R$ 1.848,13/cab; e no Rio Grande do Sul, R$ 1.716,25/cab.

Os índices médios de relação de troca (gráfico) entre as categorias de reposição e boi gordo ficaram em 1,92. Para boi magro/ boi gordo ficou em 1,24, não sofrendo alterações significativas.

Enfim, apesar de todas as incertezas envolvendo a economia brasileira, as perspectivas para a pecuária ainda são positivas. A demanda mundial por proteína vermelha vem aumentando em função do crescimento da própria população e também da renda. Embora a pecuária não esteja sofrendo os impactos negativos de uma crise mundial, a melhor maneira de se antever e minimizar possíveis problemas continua sendo a gestão eficiente, ou seja, a palavra de ordem é gerenciamento. Impulsionados pelos bons resultados alcançados pelo setor em 2014, o foco é manter a atividade em expansão, de modo que os investimentos em tecnologia, assim como o controle dos custos de produção, tornem- se cada vez mais necessários.

Antony Sewell e Rita Marquete - Boviplan Consultoria