Leite

 

DIARREIA NOS BEZERROS

o que não mata também não engorda

Doença causa um atraso de até seis meses no desenvolvimento dos bezerros na fase de cria

Juliana Moreira Camargo* e Larissa Salles Teixeira**

A diarreia, a princípio, pode parecer inofensiva ou um sintoma sem maiores complicações, mas quando atinge os animais de até 3 – 4 meses de idade, pode levar a uma queda de rendimento e atraso no desenvolvimento, o que interfere não só na sanidade do rebanho, mas no retorno econômico esperado. E quando afeta os animais de até 2 semanas de vida, tem grandes chances de ser fatal, figurando dentre as principais causas de morte em bovinos jovens. No Brasil, ainda faltam alguns estudos para precisar em números a taxa de mortalidade na fase de aleitamento. Mas segundo pesquisa feita nos Estados Unidos, em 2008, pelo Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), no mesmo país esse número chegou a 7,8%. Essa porcentagem pode ser ainda maior em território brasileiro, devido às diferenças de tecnologias encontradas nos dois locais. Dentro dessa taxa de mortalidade, sabe-se que a diarreia é responsável por nada mais, nada menos que assustadores 56% dos casos, ou seja, é a grande vilã em fases de cria de rebanhos leiteiros. A diarreia pode ser causada por inúmeros fatores (alimentares e verminoses) e agentes infecciosos, dentre os quais estão as bactérias (Salmonella sp, Escherichia coli, Clostridium perfringens), os vírus (rotavírus e coronavírus), protozoários (eimeriose e coccidiose) ou vários desses fatores e agentes agindo simultaneamente, agravando ainda mais o quadro clínico do animal e as chances de morte e perdas significativas. A junção desses fatores é o que acaba desencadeando a doença e predispondo, inclusive, às infecções secundárias. Um exemplo de situação em que ocorre um desequilíbrio nutricional e se torna fator de risco é quando o bezerro recebe muito leite em um dia e, no outro, a quantidade ingerida cai drasticamente. Esse desequilíbrio pode ser facilmente driblado…ou não. E quando não é, uma bactéria, por exemplo, presente naturalmente no trato gastrointestinal dos ruminantes, a Escherichia coli, proveita-se para proliferar e ocasionar o que chamamos de colibacilose. Outros micro-organismos também podem encontrar aqui situações favoráveis e benéficas à multiplicação. O Clostridium perfringens pode causar a enterotoxemia hemorrágica e a Salmonella sp causa a doença conhecida como paratifo dos bezerros. No Brasil, tem-se encontrado ainda o Rotavírus como causador de grande parte das enterites em rebanhos bovinos, e não apenas isso. Em decorrência da alta carga viral eliminada no ambiente, a rotavirose pode se transformar em um surto dentro da produção, sendo que a maior frequência ocorre em bezerros muito jovens, entre 16 e 20 dias de idade. Em criações intensivas, normalmente, a diarreia surge após a entrada de animais infectados no rebanho, e o pico de sinais ocorre cerca de três semanas depois, podendo levar a uma situação de surto dentro da propriedade. Já dentre as diarreias causadas por protozoários, são as mais comuns a coccidiose e a eimeriose (curso negro dos bovinos). Nessas ocasiões, o animal apresenta sinais inespecíficos e incluindo diarreias com ou sem muco, com ou sem sangue e com odor fétido. O grande problema que se tem é que quando um animal suscetível infecta-se e começa a apresentar o sinal da diarreia, ocorre uma perda muito grande de líquidos e eletrólitos e, com isso, a desidratação instala-se rapidamente, dificultando a recuperação e não raramente levando à morte. Além disso, a carga infecciosa (bactérias, vírus ou protozoários) eliminada pela maior frequência de fezes no ambiente acaba contaminando as pastagens, predispondo outros animais a também terem a doença. Por isso, as condições higiênico-sanitárias da propriedade são absolutamente importantes no manejo. Veja a seguir algumas dicas para evitar e diminuir o risco de diarreia em seu rebanho leiteiro.

As perdas decorrentes desse problema podem ser ainda maiores se a doença não for diagnosticada de início e, para que isso ocorra, é necessário prestar atenção aos mínimos detalhes que o animal demonstra, sinais de que algo está errado. Um bezerro novo e saudável, por exemplo, costuma apresentar bom apetite e se o animal começa a comer menos ou não quer se alimentar, esse pode ser apenas o primeiro sinal de que alguma doença está se instalando. Outros sintomas que merecem especial atenção são recusa a beber leite, bocas e narinas apresentando-se secas, olhos fundos, orelhas e membros frios, secreção nasal, animal deitado, febre e prostração.

Quando o bezerro mostra alguns desses sinais, seguido de diarreia, é o momento de se preocupar e buscar orientação de um profissional veterinário. Um animal que começa a ter as fezes amolecidas, e com muita frequência, perde nutrientes, líquidos e peso. O peso perdido pode levar a um retardo no crescimento de até seis meses. Pode ser pouco se comparado à morte do animal, que também é comum em casos graves, mas é uma perda que não é bem-vinda ao bolso do criador. E se estivermos falando de um animal de grande valor econômico e potencial produtivo, o prejuízo é sempre maior.

TRATAMENTO E PREVENÇÃO

O tratamento das diarreias é, em grande parte, sintomático e visa reestabelecer o equilíbrio de líquidos e eletrólitos que o animal perdeu, como forma de controlar primordialmente a desidratação. Então se inicia um suporte com antibioticoterapia, soros, vitaminas, probióticos e demais medicamentos que possam suprir as necessidades do animal. Estar atento aos fatores de risco ajuda a conter a diarreia, mas ainda é necessário mais. É preciso ter manejo sanitário, o que inclui a vacinação. Normalmente, as vacinas protegem bem contra diversos agentes, e essa é apenas uma das partes da prevenção. A outra fica restrita às práticas de manejo como ambiente limpo, boa ventilação, uso de quarentena, cuidados ao trazer bezerros de outras propriedades e não misturar animais saudáveis e doentes. A vacinação deve ser composta pelos agentes causadores principais e mais prevalentes na diarreia em bezerros. O fato de vacinar a fêmea prenhe dias antes do parto interfere na qualidade do colostro, que tem como função garantir um desenvolvimento mais saudável e principalmente fornecer anticorpos que não são passados pela placenta. O colostro é essencial na vida de bezerros, contém uma série de vitaminas e anticorpos, porém, com o passar das horas ele tende a perder sua concentração e a cria também perde a capacidade de absorção. Por isso, é de extrema importância saber que, para ser bem aproveitado pelo terneiro, a colostragem deve ser realizada nas primeiras 24 horas de vida. E de preferência como momento ideal, recomenda-se que seja feita em até três horas do nascimento. Devemos garantir que ele ingira, no mínimo, 2 litros de colostro na primeira hora de vida, quatro litros nas primeiras 12 horas e que, nas primeiras 24 horas, tenha ingerido, somando tudo, cerca de 10% a 15% de seu peso vivo, o que equivale de 5 a 6 kg de colostro. Com essas medidas e a vacinação, a ideia que se busca é proporcionar uma boa imunidade ao rebanho e maior desenvolvimento dos animais, sem enfermidades como a diarreia, que poderiam ser um grande obstáculo facilmente evitado. Em situação de surto, a necessidade da vacinação é ainda maior. Quando falamos em prejuízos, os custos são muito elevados. Para se ter ideia, estima-se que os prejuízos causados pelo coronavírus seja de 16 a 28 milhões de dólares por ano, o que atualmente equivale a cerca de 90 milhões de reais. Enquanto que vacinar o rebanho, manter o vazio sanitário e pensar em práticas nutricionais e de manejo pode ter um custo muito menor, ou dependendo do ponto de vista, trata-se mesmo de um investimento em qualidade, desenvolvimento e produção. Na pecuária leiteira, a diarreia torna-se um grande desafio, que faz os produtores perderem as contas de quanto prejuízo já tiveram. O fato de ser uma doença multifatorial acaba englobando mais cuidados e atenção. E se existe uma fase realmente crítica de suscetibilidade às doenças, essa fase é a de aleitamento. Com o animal ainda jovem, sem muita condição de combater vírus e bactérias em potencial, ele pode estar totalmente desprotegido, se algumas medidas não forem tomadas. A vacina estimula o sistema imune da fêmea prenhe que, por sua vez, transmite anticorpos já prontos para sua cria. Enquanto isso, o animal tem certa proteção até que se possa iniciar o seu próprio protocolo vacinal. Afinal, sabe-se que a fase mais crítica ocorre nas primeiras semanas, mas o risco pode perdurar por até quatro meses de vida. E quando falamos em risco, existe risco de se ter também um surto na propriedade.

O produtor que se preocupa com o bemestar dos animais, bem como com seu retorno econômico, deve se certificar de que as chances de ter uma doença atacando seu rebanho são mínimas

Buscar a proteção contra doenças nas fases mais críticas de vida do animal pode determinar se o ganho de peso será adequado, se o rendimento da carcaça será o esperado, se a produção leiteira atingirá as expectativas e se o animal se tornará de grande valor no futuro ou não. Prevenção antes de remediar é sempre a melhor escolha, afinal, “o que não mata, nesse caso, também não engorda”.

*Juliana Moreira é médica-veterinária e gerente do Departamento Técnico da Vencofarma - setec@vencofarma. com.br
** Larissa Salles é médica-veterinária e trainee do Departamento Técnico da Vencofarma - setec3@vencofarma. com.br