O Confinador

 

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

Elio Moro*

O confinamento de bovinos chegou ao Brasil como uma estratégia para engordar bois na entressafra, e conseguir melhores preços por @ produzida no período em que historicamente a oferta é menor devido às condições climáticas (seca). Porém, nos últimos anos, as estratégias de suplementação a pasto ou até mesmo os semiconfinamentos têm melhorado a eficiência do sistema de produção e os objetivos do confinamento tomaram outras diretrizes como aumentar a eficiência produtiva dos rebanhos, diminuir lotação das pastagens na seca, encurtar o ciclo de produção, abater animais mais jovens, confinar a recria, padronizar carcaças, liberar áreas de pastagens para outras categorias, entre outras oportunidades.

A doença respiratória bovina (DRB) é a principal causa de morbidade, mortalidade e perdas econômicas em bovinos confinados. O estresse gerado no transporte, a adaptação ao novo ambiente e a exposição a agentes infecciosos são os principais fatores predisponentes para a síndrome ou complexo das doenças respiratórias.

Quando os animais são fechados no confinamento, o agrupamento em lotes causa estresse, mesmo que por um período pequeno. A superlotação causa elevação da umidade do ar e, consequentemente, o aumento do tempo de sobrevivência de patógenos no ar, o que pode aumentar a incidência de doenças respiratórias dos bovinos (DRB). Os problemas respiratórios em confinamentos podem causar grandes prejuízos econômicos, principalmente pelo difícil diagnóstico dos casos de pneumonia subclínica, presente em grande escala nos rebanhos. Tanto na forma aguda, quanto na crônica, as doenças respiratórias representam cerca de 70% das mortes ocorridas em confinamentos, além disso, animais com problemas crônicos têm menor peso ao abate e baixo rendimento de carcaça, em virtude de lesões decorrentes da doença. Os custos com os medicamentos para tratar as doenças respiratórias representam 30%, enquanto que as perdas no ganho de peso e qualidade de carcaça chegam a 70%.

A DRB em animais confinados pode ser dividida em três etapas: 1ª etapa – imunossupressão causada principalmente pelo estresse (mistura de lotes, transporte, adaptação, ambiente, manejo, etc.); 2ª etapa – os vírus respiratórios infectam os animais, multiplicam-se e causam problemas respiratórios. Entre os principais podemos citar: Vírus Respiratório Sincicial Bovino (BRSV), Parainfluenza tipo 3 (PI3), Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR) e Diarreia Viral Bovina (BVD); 3ª etapa – proliferação do vírus pelas células epiteliais do aparelho respiratório, danificando as vilosidades e expondo o animal a infecções por bactérias tais como Mannheimia haemolytica, Pasteurella multocida, Histophilus somni e Mycoplama bovis, que são os quatro patógenos bacterianos respiratórios mais comuns que acometem bovinos confinados. Apesar de esses agentes infecciosos serem os mais importantes, há de se considerar que outros vírus e bactérias podem, eventualmente, causar doença respiratória nos animais confinados.

Nos últimos anos, muitas mudanças têm ocorrido na atividade de confinamento no Brasil, tais como confinamento de animais mais jovens, e, portanto, mais susceptíveis às doenças, alta lotação dos confinamentos, favorecendo e facilitando a disseminação de agentes patogênicos no rebanho, e busca de animais cada vez mais distantes dos confinamentos, o que submete os animais a um grande estresse e, por conseguinte, queda da imunidade favorecendo o aparecimento das doenças respiratórias.

A DRB é um complexo de doenças que acomete parte ou todo o trato respiratório dos bovinos e são causadas por diversos agentes infecciosos (vírus e/ou bactérias). A chance dos animais desenvolverem doenças respiratórias é maior nas primeiras semanas de confinamento.

De forma geral, as DRBs em confinamento podem se manifestar de forma clínica (quando os sintomas são claros e visíveis) e na forma subclínica (quando os sintomas são mais brandos e muitas vezes não são facilmente notados).

Apesar de a forma clínica chamar mais atenção por parte dos técnicos e trabalhadores dos confinamentos, pois o animal afasta-se dos outros e apresentam sinais como febre, tosse, dispneia, corrimento nasal e dificuldade respiratória, algumas vezes até mesmo a morte de alguns animais, porém, não são esses animais que causam os maiores prejuízos para o confinador.

A forma subclínica das DRB assume uma importância muito grande dentro do confinamento, pois estima-se que, para cada caso clínico (animal visivelmente doente), teremos em torno de 8 a 10 com sintomas subclínicos. Esses animais que apresentam a forma subclínica terão um desempenho (ganho de peso diário) muito inferior quando comparado com um animal saudável. Para simplificar esse exemplo, podemos imaginar essa situação como um iceberg, onde os casos clínicos são a parte visível do gelo - a ponta - e os casos subclínicos, a grande parte submersa.

Exemplificação da situação das doenças respiratórias no confinamento.

A prevenção da DRB em confinamento não é algo tão simples que possa ser solucionada com uma única medida, pois muitos fatores estão envolvidos. Um bom manejo, uma boa nutrição e um bom programa de profilaxia das doenças respiratórias são muito importantes para preservar a saúde e garantir uma boa produtividade dos animais confinados.

De forma geral, a melhor maneira de prevenir as DRBs em animais é analisar e gerenciar os riscos. Um exemplo clássico é a extensão que os animais viajam até chegar ao confinamento. Quanto maior a distância, maior será o estresse que os animais estarão expostos e, por conseguinte, maior a probabilidade de desenvolverem doenças respiratórias.

Após fazer uma boa análise do risco, o segundo passo é desenhar e implementar um programa de prevenção através de um calendário sanitário adequado para cada confinamento.

Uma das maneiras mais eficientes de prevenir as doenças respiratórias nos confinamentos é implementar um programa de vacinação na entrada dos animais.

Figura esquemática das rondas nos currais

Hoje, o mercado brasileiro dispõe de vários tipos de vacinas para prevenção das doenças respiratórias, entre elas, vacinas com vírus vivos termossensíveis e atenuados e vacinas com vírus inativados. É muito importante que o produtor se assessore com um técnico para que esse avalie as características de cada tipo de vacina quanto a segurança, espectro de proteção e eficácia da vacina para obter o máximo de retorno desse investimento.

Um bom programa vacinal irá diminuir de maneira significativa o aparecimento de casos clínicos e subclínicos, porém, sempre aparecerão alguns animais que mesmo vacinados irão desenvolver a pneumonia após o programa de vacinação.

Nesse caso, recomenda-se o tratamento terapêutico desses animais o mais cedo possível, ou seja, assim que aparecerem os primeiros sintomas da doença (afastamento dos outros animais, corrimento nasal, tosse, etc.), para aumentar as chances de recuperação desses animais, minimizando assim a queda de desempenho animal.

Uma maneira simples de detectar os bovinos doentes dentro dos currais é através de rondas sanitárias diárias para identificar e tratar os animais o mais cedo possível.

Durante as rondas é importante levantar todos os animais que estiverem deitados e assim ser possível identificar qualquer animal que esteja doente.

Ao identificar qualquer animal doente, o ideal é que o mesmo seja retirado do curral e transferido para um curral-enfermaria, onde ficará até sua completa recuperação. Somente após a cura da doença esse animal poderá retornar para os currais de engorda.

Elio Moro informa que os animais com sintomas são apenas a ponta do iceberg

Hoje, o mercado brasileiro dispõe de uma ampla gama de antibióticos que podem ser utilizados para o tratamento das doenças respiratórias. Mais recentemente foram lançados no mercado brasileiro antibióticos da classe dos macrolídios que possuem uma grande afinidade pelo tecido pulmonar e, portanto, possuem uma alta eficácia no tratamento das doenças respiratórias causadas por bactérias. Entre esses antibióticos, existem alguns com um amplo perfil farmacocinético e que na maioria das vezes um único tratamento é suficiente para recuperar o animal. É importante lembrar que qualquer animal que recebe qualquer tratamento com antibiótico só poderá ser abatido para consumo humano após o período de retirada ou de carência de cada produto específico.

Sugerimos que cada confinamento tenha uma caderneta ou outro mecanismo qualquer de anotação dos tratamentos realizados durante a ronda sanitária.

A tabela acima é um exemplo de caderneta de anotação que pode ser utilizada para identificar os animais doentes, tipo de medicamento utilizado e período de carência.

Em conclusão, as doenças respiratórias em confinamento são muito comuns, podem acometer muitos animais do curral e causam grande impacto econômico, tanto na saúde dos animais quanto na rentabilidade do negócio, pois interferem no desenvolvimento do gado e implicam em gastos com medicamentos, mão de obra e até mesmo a morte de animais.

A profilaxia, através do uso de vacinas, para prevenir o aparecimento das doenças respiratórias, é uma ferramenta importante que o produtor pode utilizar com o intuito de minimizar as perdas e prejuízos causados.

A escolha do antibiótico para tratamento dos animais que adoecem deve ser baseada em critérios científicos e deve-se dar preferência para aqueles que tenham demonstrado eficácia no tratamento das doenças respiratórias em confinamento.


CONFINAMENTO PODE CRESCER ATÉ 7,65%
(Da Redação)

A Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) concluiu o 1º levantamento que aponta os primeiros indicativos para a atividade da pecuária intensiva em 2015. Foram entrevistados 85 confinadores e a previsão para este ano é que sejam confinados 828.485 animais, ante 769.600 em 2014. Essa diferença representa um crescimento de 7,65%. Durante a coleta de dados feita em fevereiro pela associação, parte dos entrevistados relatou grande dificuldade para adquirir animais de reposição com preços competitivos, o que deixa uma incerteza se os confinadores realmente conseguirão atingir a meta estabelecida. “Aproximadamente 64% do gado necessário para o cumprimento da meta está adquirido e o alcance da outra parte pendente está comprometida, por conta dos altos valores dos animais de reposição”, analisa Bruno de Jesus Andrade, gerente executivo da Assocon. “Há ainda expectativa de boas exportações de carne bovina com a alta do dólar e os produtores estão otimistas com as cotações do boi gordo neste 1º semestre. Entretanto, existe certo receio sobre o 2º semestre, por conta de uma possível piora da demanda interna”, complementa Juliane da Silva Gomes, zootecnista da Assocon.

EVENTO
Na décima edição, o Encontro de Confinamento da Scot Consultoria – Recria e Engorda acontecerá em Ribeirão Preto e Barretos/SP, nos dias 14, 15, 16 e 17 de abril. Os altos patamares de preços da arroba em 2014 podem ter iludido o confinador de que 2015 seria um ano de ventos bons e calmos para a atividade, porém, a escassez e os altos preços do boi magro tornaram-se motivos de preocupação. Por isso, neste ano, por meio de novas abordagens e nomes tradicionais do mercado, como Amauri Alfieri, da UEL; Moacyr Corsi, da ESALQ/USP, e Sérgio De Zen, do Cepea/USP, a recria também estará em pauta, além dos velhos e novos desafios da engorda.

Os participantes poderão optar por se inscrever em um, dois, três ou até quatro dias. O primeiro, dia 14, será totalmente voltado à recria, novidade desta edição. Já o segundo e o terceiro dias serão dedicados aos temas que envolvem a engorda. No último dia, acontecerá o dia de campo, no qual o participante poderá optar por uma visita técnica às estações (Currais de engorda; Curral de manejo; Fábrica de ração; Fenação e forragem; e Sustentabilidade) ou por um dos quatro minicursos, que também são novidades deste ano: Excelência na produção de feno e pré-secado; Gestão de processos; Gestão de propriedades rurais (exclusivo para mulheres) ou Gestão de risco de mercado. Saiba mais em www.encontroconfinamento.com.br.

*Elio Moro é médico-veterinário e gerente técnico de Bovinos da Zoetis