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ESTAÇÃO DE MONTA

Realmente existe importância na gestão da fazenda e benefício para o produtor que se utiliza do período reprodutivo?

Luís Adriano Teixeira*

A Estação de monta (EM) – período do ano em que submetemos as matrizes aptas à reprodução ao acasalamento, podendo ser efetuado com touros (Monta Natural ou Controlada) ou por Inseminação Artificial – já é amplamente utilizada, mas ainda existem vários produtores que não se utilizam dessa tecnologia de manejo, simples de ser introduzida e que tem grande retorno em vários aspectos produtivos e de manejo da fazenda. Então, vamos colocar alguns desses pontos para analisarmos a sua importância, quais os benefícios e principais cuidados a serem tomados para uma melhor implantação.

Qualquer produtor já sentiu na “carne” que sua fazenda precisa ser mais eficiente e produtiva a cada ano para garantir o mesmo retorno que se obtinha antigamente, quando a pecuária era uma atividade basicamente especulativa e reserva de valor frente à inflação. Tanto é fato que os números gerais da pecuária brasileira mostram maior produção de carne, diminuição da idade ao abate, melhores taxas de lotação e assim por diante. Grande parte desses avanços foi conquistada na fase de recria e engorda, quando se pode avaliar mais rápido o retorno de qualquer investimento.

Já no setor de cria, base de toda cadeia pecuária, demora um pouco mais, além de ser mais complexa de ser comparada, uma vez que precisamos considerar todo o período reprodutivo e suas consequências nas gerações seguintes e os ganhos acumulativos ao longo das mesmas. Contudo, a cria é a fase que necessita de maiores investimentos para manter o Brasil entre os líderes de produção de carne mundial.

Quando falamos da fase de cria e mais específicamente da vaca ou novilha, a principal função é produzir um bezerro por ano. Ela é a sua fábrica, e quanto melhor for o bezerro (entenda-se mais pesado e precoce), melhor será a matriz. Para aprimorar a qualidade do bezerro, a tecnologia mais eficiente é o melhoramento genético, que é a base de tudo. Entretanto, como podemos avaliar se realmente as vacas estão produzindo um bezerro todo ano ou medir corretamente e com maior rapidez essa informação?

É aí que entra a EM. Ela é a ferramenta que irá facilitar a detecção das vacas e novilhas que estejam usando sua fazenda como um “Hotel Rural” sem deixar um bezerro por ano no check-out. Com vacas parindo todo mês, fica inviável saber qual vaca produziu um bezerro todo ano, ou pelo menos nos últimos 13 a 14 meses. Então este é o primeiro benefício da EM: avaliar e identificar de forma eficiente e rápida as vacas produtivas e não produtivas na sua fazenda. Além da avaliação da eficiência reprodutiva (produção de bezerros/as), a EM também acaba “setorizando” as atividades da fazenda.

Com a definição do período para reprodução, todas as demais fases de produção da fazenda também acabam sofrendo a influência desse período. Assim, a fazenda pode se organizar para concentrar os demais manejos em épocas específicas, como nascimento, desmama, manejo sanitário, etc. Melhora a organização da fazenda e permite a criação de um calendário de manejo e, dessa forma, os peões podem focar os trabalhos e esforços em cada uma dessas etapas. Ao contrário de todo mês ter animais nascendo e desmamando.

Outra vantagem da EM, é que, no diagnóstico de gestação, já se saberá uma previsão do número de animais da próxima safra de nascimento e, portanto, desmama, permitindo à fazenda fazer a projeção do estoque de rebanho. Com essa projeção, é possível avaliar a capacidade de suporte dos pastos e a taxa de lotação da fazenda, prever a necessidade de insumos para orçamento e, por fim, mas não menos importante, as vendas futuras e a receita gerada para o negócio.

A EM também possibilita um período para descanso dos touros, permitindo que se recuperem do trabalho mais intenso e também a realização planejada do exame andrológico e da avaliação física anual que são feitos antes de cada período reprodutivo, possibilitando o descarte de animais machucados ou que não estejam aptos à reprodução. A concentração dos nascimentos vai gerar lotes mais homogêneos e que tendem, portanto, a obterem melhores preços de venda ou, no mínimo, que a mesma ocorra com maior facilidade.

Para as novilhas, que sabidamente tendem a apresentar período pós primeiro parto e nova concepção (prenhez) maior, é recomendado que a estação das novilhas comece mais cedo que a estação padrão da fazenda. Vários consultores preconizam iniciar até 30 dias antes da estação normal. Com esse manejo, elas “ganham” trinta dias para recuperação antes do término da próxima estação, quando se tornarem primíparas. Agora já estamos convencidos da importância da EM! Mas, como podemos fazer para determinar qual o melhor momento para sua realização?

Estudos mostram que a melhor eficiência da EM ocorre quando ela é realizada no período de maior disponibilidade de pasto na fazenda, para que as fêmeas, mesmo produzindo leite para o bezerro, possam continuar a ganhar peso e manter as funções reprodutivas ativas. Por isso, de forma geral, na maior parte das regiões de pecuária de corte do Brasil Central, a EM ocorre de novembro a fevereiro. Esse período também tem influência na época do nascimento e vários trabalhos já comprovaram que os bezerros nascidos no começo da fase das chuvas são os mais pesados na desmama. Contudo, para cada região específica, deve- -se avaliar qual a época de maior concentração do período de chuvas e, consequentemente, melhores condições para desenvolvimento das pastagens e, portanto, um maior número de fêmeas ciclando.

Uma vez determinada a implantação, essa não deve ser iniciada abruptamente, o que implicaria na queda brusca de fêmeas com capacidade de concepção no decorrer do período e consequente queda no número de animais nascidos e na redução do faturamento. Então, a melhor forma é implantá-la gradualmente e em um intervalo maior, iniciando, por exemplo, com uma estação de seis meses e reduzindo um mês em cada ano subsequente, até que a mesma chegue ao período desejado. Mesmo assim é possível que uma quantidade representativa de fêmeas não esteja apta à concepção, seja por já estar prenhe ou por parir bezerro muito próximo do final da estação, o que dificulta a involução uterina e a reconcepção dentro do novo período proposto.

Nesse caso, no primeiro ano de implantação, dependendo do número de fêmeas, o seu descarte na totalidade pode implicar em uma redução drástica do fluxo de caixa, em virtude da diminuição do número de animais nascidos e dos futuros animais que seriam vendidos. Uma forma de reduzir esse impacto é reter essas matrizes até a parição e desmama da gestação atual, e, dessa forma, na EM do ano seguinte elas entrariam solteiras – sem o bezerro ao pé –, facilitando que já tenham concepção logo no início da EM e permitindo que elas permaneçam no rebanho por mais tempo nos anos seguintes. E no caso de que, mesmo com essa ajuda de manejo, elas não cheguem prenhes ao término da EM, devem ser sumariamente descartadas.

A partir desse ponto, todas as fêmeas que estejam vazias no diagnóstico de gestação devem ser eliminadas tão logo atinjam peso de abate ou desmame do bezerro. Esse descarte ocorre logo no início da estação seca, o que disponibiliza mais espaço para as vacas produtivas, ajudando a controlar a lotação. Uma atenção especial deve ser dada aos touros que serão utilizados para a reprodução, tanto para o caso de monta natural como para o uso de inseminação artificial, já que eles têm um maior impacto na multiplicação da genética no plantel do criador. A relação touro:vaca pode variar muito de fazenda para fazenda, conforme o tamanho dos pastos, manejo, etc., portanto, acreditamos que o número mais adequado é a relação de um touro para cada 25 fêmeas, pois, caso exista algum touro machucado ou submisso, a relação pode aumentar sem comprometimento nas taxas de concepção.

Mesmo no caso de touros em monta natural, os mesmo têm potencial de produção de 125 a 150 produtos ao longo da sua vida útil, quantidade muito superior à das vacas. O touro em si é mera embalagem para o que realmente importa: o seu valor genético expresso em DEPs – Diferenças Esperadas na Progênie – e essas, sim, possuem o potencial de melhorar significativamente a produtividade e a qualidade do potencial genético dos animais. Porém, nos dias atuais, já existem vários selecionadores que efetivamente utilizam as DEPs como critério de seleção dos reprodutores a serem ofertados, e não simplesmente se baseiam na "seleção" baseada em parâmetros visuais e de pedigree.

Para que as taxas de prenhez obtenham os melhores resultados, é importante que seja dada especial atenção logo no início dos nascimentos e da formação dos lotes de vacas paridas para entrarem na próxima EM. Necessita- se especial atenção para que elas estejam em bom estado corporal e ganho de peso para que a fazenda obtenha o maior número possível de matrizes prenhes já nos primeiros meses da EM, possibilitando um período maior de recuperação nos próximos anos e manutenção das mesmas na propriedade, desmamando mais bezerros ao longo da vida, diluindo o custo de produção por vaca e melhorando a taxa de retorno por vaca.

Segundo Luís Adriano, a estação de monta permite o nascimento de bezerros mais pesados e homogêneos

Na inseminação, caso ainda seja utilizado o sistema tradicional, é importante fazer o acompanhamento diário das taxas de cio para determinar se o lote ainda apresenta bom desempenho para inseminação e se deve dar início do repasse com touros. No caso da IATF, é mais importante ainda a avaliação da condição corporal dos lotes de vacas, para que se obtenham resultados satisfatórios com essa técnica.

Durante a EM, no caso da monta natural, é importante realizar o monitoramento dos lotes para evitar frustação futura após o diagnóstico de gestação e queda nas gestações. Para isso, é recomendável, pelo menos duas vezes por semana, que seja feito o rodeio no lote de fêmeas e touros para observar o comportamento dos animais. Nessa inspeção, é possível verificar a existência de animais machucados, seja por injúria ou brigas entre os touros na disputa pelas matrizes, e ainda a detecção de algum reprodutor muito submisso ou dominador. Os mesmos devem ser remanejados dos lotes para evitar um desequilíbrio maior na relação touro:vaca ou maior incidência de machucados e brigas entre o rebanho.

*Luís Adriano é médico-veterinário e coordenador de Pecuária da CFM, propriedade reconhecida com Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP) faleconosco@agrocfm.com.br