Raça do Mês - Charolês

 

A raça do terceiro milênio

A nova era da pecuária exige carne de qualidade e o Charolês busca seu espaço para atender essas demandas

Erick Henrique erick@revistaag.com.br

O criador brasileiro está cada dia mais antenado com as novas tecnologias para o melhoramento genético do rebanho. Ele participa de simpósios, busca atualização com especialistas em Zootecnia, veterinários com know-how e líderes de associações das A nova era da pecuária exige carne de qualidade e o Charolês busca seu espaço para atender essas demandas diversas raças bovinas que temos em nosso país.

Esse engajamento do pecuarista em abrir horizontes, sem sombra de dúvida, mira as demandas seletivas de proteína vermelha. Diante disso, o taurino de origem francesa deseja ser o norte que con- A raça do terceiro milênio duzirá a qualificação de carne através do cruzamento industrial pelo Brasil afora.

Como prova dessa perspectiva, os criadores estão valorizando o chamado Charolês funcional. A meta é produzir exemplares com tamanho moderado, habilidade materna e peso de carcaça, visando ao gado que a indústria procura. Além disso, os criatórios ampliaram a base de produção com o uso de genética de origem norte-americana e do berço francês.

Os criadores de Charolês estão animados com a elevação das demandas por carne de qualidade diferenciada e aspiram uma boa perspectiva para 2015, graças a este bom momento de valorização que a pecuária brasileira vem atravessando.

Essa ambição não poderia ser pensada se o taurino não tivesse características como porte musculoso, além do elevado rendimento de carcaça entre 54% e 56% no gado puro e cruzado, segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Charolês (ABCC).

Wilson Borges destaca que há vários cases de Charolês nas regiões Centro- Oeste e Nordeste

Outro fator que atesta a qualidade da carne charolesa é a formação da linhagem brasileira, altamente utilizada no Centro-Oeste e Nordeste para cruzamento industrial com o Zebu, derivada de três padrões distintos: o francês (com animais de maior massa muscular), o inglês (gado mais alto e comprido), fechando a trinca com o argentino (combinação entre os dois tipos citados).

Atento a essa prática de inserção do taurino branco nas regiões citadas, o presidente da ABCC, Wilson Borges, avalia como caminha a aceitação da raça. “Temos vários cases de sucesso com o Charolês nessas regiões, mas sempre são necessários alguns cuidados especiais em relação à cultura do zebuíno, que é predominante por lá”, diz.

De acordo com o presidente, os criadores estão atentos para detalhes como tamanho dos potreiros e dos abrigos e, principalmente, quanto ao controle do carrapato. Desse modo, conseguem ótimos resultados.

Frente a esses aspectos apresentados, o leitor de AG começa a compreender que essa rica genealogia solidifica o propósito dos pecuaristas na busca de suprir aos anseios do mercado frigorífico e igualmente ao consumidor final, pois os principais atributos do Charolês estão na ampla produção de massa muscular, com capa de gordura na medida certa, associados a rusticidade e adaptabilidade às variações climáticas.

A habilidade materna não fica de fora, a vacada cria seus bezerros a campo e desmama-os com peso médio de 200 kg, aos 6-8 meses, assim como o crescimento: o bezerro desenvolve-se muito rápido, em especial, nos animais cruzados.

Também importante destacar a qualidade de carcaça, em virtude do ótimo desenvolvimento e conversão alimentar, os charoleses são abatidos mais jovens a pasto, com 24 meses, e em alguns casos até 18 meses, em pastagem de verão. O esqueleto é mais desenvolvido e capaz de produzir carnes nobres, melhores em qualidade e quantidade.

André Plastina Gomes, da Estância Sá Brito, localizada em Alegrete/RS, criador de Charolês há mais de 60 anos, endossa essas premissas. “Nossa opção pelo Charolês nasceu da incontestável capacidade de produção de carne da raça, sobretudo no rendimento de carcaça. Trabalhamos com ciclo completo e nosso rebanho é totalmente rastreado e a produção de carne, comercializada para o exterior, o que garante uma boa remuneração”, afirma André Gomes.

Sobre a exigência atual do mercado de carne, o criador de Alegrete comenta que hoje a carne charolesa atende o padrão mais rigoroso do mundo, que é o europeu, além do inglês, que possui o maior rebanho do taurino branco no continente. “Lembro que a Inglaterra é o berço das raças britânicas e ainda assim o Charolês por lá predomina”, informa Gomes.

Carne certificada já é realidade no Charolês

O criador aposta no potencial do animal para qualificar o cruzamento industrial brasileiro nessa nova era da pecuária. “Acredito que o Charolês será o principal parceiro do Nelore para atender toda a cadeia produtiva. Acrescenta ganho de peso, rendimento de carcaça e a tão desejada qualidade de carne”, acredita Gomes.

Marca Charolês

Essas qualidades esboçadas anteriormente surtiram efeito em 2014, com a ratificação da marca própria da carne charolesa. Visto que se iniciou, em novembro, oficialmente, a produção de Carne Charolês Certificada no estado de Santa Catarina, estado que goza de um status sanitário diferenciado, sendo o único reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação. Projeto desenvolvido pela ABCC com parceria do Frigorífico Verdi, localizado na cidade de Pouso Redondo.

De acordo com o dirigente do frigorífico, Ariel Verdi, os abates de Charolês tornaram-se rotina, acompanhando a absorção dessa carne pelo mercado. Ele ainda ressalta que o mercado atual de carne bovina passa por um processo de qualificação e a empresa está mantendo com rigor o padrão de qualidade no processo produtivo.

Os reflexos dessa iniciativa já chegaram ao bolso dos criadores catarinenses. Com os primeiros abates registrando ótimos resultados, nas fêmeas, a média de peso de carcaça ficou em 255 kg, com bonificação média de 7%. Machos atingiram peso médio de carcaça de 287 kg e bonificação de 8%.

Conforme dito pelo diretor de certificação da empresa, Eldomar Kommers, em menos de três meses de programa, os criadores estão satisfeitos porque ganham mais de R$ 200,00 de bônus por animal que entra no programa. Assim como o consumidor, que não poupa elogios ao produto, na maciez e no sabor.

Animado com desempenho dessa iniciativa, o presidente da ABCC, Wilson Borges, avalia que o Programa de Carne Charolês Certificada com o Frigorífico Verdi tem andado muito bem nesse início. “Os animais abatidos têm se revelado realmente superiores e o produto final tem sido muito prestigiado”, afirma.

De acordo com Borges, os varejistas que adquiriram as primeiras partidas voltaram a comprar e os consumidores estão elogiando a qualidade da carne e gerando uma demanda importante para o Charolês. Por sua vez, os produtores dos animais também estão satisfeitos com a bonificação recebida.

“Conversei por esses dias com um deles, que me relatou o envio de 16 novilhas para o abate e recebeu o equivalente a 17 novilhas, devido à gratificação. Ele disse que foi como se uma delas tivesse dado cria no frigorífico”, brinca.

Também entusiasmado com a marca Charolês no mercado, o ex-presidente da associação e atualmente diretor do Programa de Carnes, Joaquin Villegas, confirma que a genética do animal é capaz de produzir a carcaça dos sonhos de todo frigorífico.

Para Wilson Borges, a afirmação, na verdade, é uma constatação prática e concreta de que os animais oriundos da genética charolesa fornecem adequado acabamento, com idade precoce e um tamanho maior de carcaça, que otimiza a eficiência da indústria. “Não é à toa que o Charolês ganhou, nos últimos três anos, os mais importantes prêmios no Concurso de Carcaças da Cota 481 HGB (High Quality Beef - Carne de Alta Qualidade, em português) no Uruguai”, comemora.

“Outras raças atingem acabamento com pesos muito menores, o que não é interessante à indústria, pois a mão de obra necessária para abater e processar um boi de 550 kg é a mesma para um animal de 450 kg, porém, o gado de 550 kg dá 20% a mais de carne”, esclarece.

Outro fator apontado pelo dirigente e que favorece a qualidade do taurino de origem francesa é a questão do acabamento na medida certa, sem excesso, bem como o rendimento de carcaça e a proporção de traseiro/dianteiro, maior que o de outras raças de menor porte. Além disso, há o diferencial do equilíbrio carne/gordura na costela, promovendo grande aceitação do corte por parte do consumidor.

Emendando esse assunto levantado com a otimização do processo de refrigeração nos frigoríficos, carcaças menores geram um vazio maior na base da câmara frigorífica e esse espaço demanda energia para ser refrigerado, não sendo aplicado na conservação da carne.

Novilhos apresentam entre 54% e 56% de rendimento de carcaça

Segundo o líder da ABCC, essas questões são comentadas “à boca miúda” pelos frigoríficos, que não divulgam abertamente esses temas para não se indisporem com seus fornecedores de animais para abate.

Criadores do taurino de origem francesa ganham mais de R$ 200,00 de bônus por animal abatido que entra no programa de carne certificada

Valorização nos leilões

Decerto, bons ventos sopram a favor do Charolês de tal forma que, ao longo de 2014, os doze remates realizados na região Sul (virtuais e presenciais) registraram para a raça a maior média dos últimos cinco anos.

Puxando o carro, 177 reprodutores ofertados geraram uma média de R$ 7.527 e faturamento de R$ 1,3 milhão. Fêmeas registraram aumento de 27%, para 75 exemplares, com receita de R$ 305.740.

O mesmo levantamento aponta como destaque que a maior média para touros pertenceu ao 5º Charolês do Norte Pioneiro, promovido pela ABCC em parceria com os criadores Jamil Deud Júnior, da Fazenda Santa Tecla; André Berta, da Fazenda Figueira; e Cézar Adams Cézar, da Cabanha Cézar, com o faturamento de R$ 447.040 por 198 lotes.

Ciente desses resultados, o mandatário da associação aprecia o momento. “O mercado tanto para touros, fêmeas e sêmen tem aumentado nos últimos anos para a grande maioria das raças taurinas, e para o Charolês, que é uma das mais importantes e tradicionais, não poderia ser diferente”, ressalta Borges.

Cenário Charolês

Pegando carona com os números, a ABCC estima que o rebanho computado de animais puros de origem e puros por cruza deve girar em torno de 20 a 30 mil cabeças. Além disso, anualmente são registrados aproximadamente 2.000 animais PO, algo que, segundo o órgão, é insuficiente para a necessidade e potencial de uso da raça no cruzamento industrial.

O panorama para o taurino é positivo como explica o presidente: “na medida em que, atualmente, a eficiência é fundamental para a viabilização da pecuária em comparação com outras alternativas de uso de terra, a utilização da raça ganha um impulso extraordinário, pois os estudos comprovam que ele é capaz de gerar o resultado desejado”, diz Borges.

Para ele, o estágio atual da pecuária em termos de Brasil apresenta regiões com grande predomínio de algumas raças, onde Charolês sobressai como uma alternativa imbatível de agregar os benefícios da heterose, tanto em cruzamentos com zebuínas quanto com as britânicas e suas sintéticas, proporcionando ganho de peso, carcaças maiores, amplo rendimento de carcaça, conversão alimentar, rusticidade e inclusive docilidade.

Por falar em sobressair, a raça tem recebido um intenso investimento em Santa Catarina como o programa de certificação. “O estado tem uma condição muito boa de produção e alimentação para o rebanho, assim o Charolês consegue expressar o seu desempenho superior. Fazendo uma analogia com as autoestradas europeias, lá as Ferraris e Porsches voam, deixando os outros para trás. É mais ou menos o que acontece com o taurino em SC”, brinca.

O criador Jamil Deud Júnior, da Fazenda Santa Tecla, de Abelardo Cruz/SC pontua o porquê de o estado atrair olhares da cadeia produtiva de carne. “Santa Catarina tem como condição especial ser o único livre de vacinação de febre aftosa no Brasil, embora tenha a adversidade de não ter uma população numerosa para bovinocultura de corte, devido às limitações geográficas. Mesmo assim, nossa demanda pela raça Charolesa tem sido intensa. Já que as fazendas catarinenses são menores, é necessário investir em alta tecnologia para viabilizá-las. É nisso que o Charolês realmente faz a diferença para obtenção de maior custo x benefício dentro dessas cabanhas”, disse Jamil Deud.

Para o proprietário da Fazenda Santa Tecla, entre os fatores que notabilizam o taurino branco na região estão a capacidade de adaptação, tanto ao clima quanto à topografia. Algo que, segundo Jamil Deud, são elementos favoráveis ao desenvolvimento da raça.

Tendo como meta pessoal, o mandatário da associação e engenheiro civil em exercício ressalta que sua ambição pessoal é compilar dados concretos e números que comprovem que o Charolês é uma excelente ferramenta de aumento de produtividade na pecuária e, com isso, aumentar a utilização da sua genética através de touros e inseminação artificial.

“Estamos obtendo êxito nesse caminho e em nossa revista deste ano vamos publicar um artigo científico realizado no Pará que comparou o Nelore PO com meio-sangue Charolês x Nelore e outras cruzas e que concluiu que o grupo genético com sangue Charolês destacou-se em todos indicadores de desempenho para os dois anos de estudo, gerando, consequentemente, incremento na receita final da atividade”, divulga.