Especial Máquinas para Feno

  

MODELO CERTEIRO

Cada etapa de produção do feno exige um maquinário específico

Rodolfo Wartto Cyrineu*

A produção de feno é um processo de conservação de forragem dominada há séculos pelo homem.

O objetivo é preservar um alimento de bom valor nutritivo com o mínimo de perdas, para utilizá-lo em época diferente da produzida, ou mesmo em outro local, em razão da facilidade de transporte.

O feno pode ser produzido com diversas espécies de forrageiras, desde as braquiárias até aveia, palhada de trigo e, principalmente, as gramas-bermudas, entre as quais estão o Tifton 85, o Coastcross e o Jiggs.

O Tifton 85 responde muito bem em regiões quentes, porém, no caso de atraso no corte durante períodos prolongados de chuvas, quando o capim geralmente fica passado, os talos ficam mais grossos, resultando em produção de menor qualidade (“taludo”). Já a grama Jiggs possui maior produtividade nas regiões mais frias, e mesmo durante o inverno, é resistente às geadas, garantindo um corte a mais em relação às demais gramas, no mesmo período.

Geralmente os fenos produzidos a partir de braquiárias são destinados ao consumo próprio em fazendas de pecuária de corte e os produzidos com as gramas-bermudas mais destinados à pecuária de leite e à alimentação de equinos, com consumo próprio, ou para serem comercializados.

Um feno de boa qualidade é resultado de uma forrageira cortada na fase adequada, levando em consideração o maior valor nutritivo versus a produtividade por hectare (em torno de 28 dias para as gramas-bermudas no período de verão), o tempo necessário para a desidratação no campo (entre 1 a 3 dias), a não ocorrência de chuvas após o corte e a umidade adequada do fardo, que deve ser entre 12 e 18%.

A Embrapa Gado de Leite classifica os fenos em 3 tipos: A, B e C, conforme o teor de umidade, % de PB (Proteína Bruta) e % de FDN (Fibra em Detergente Neutro). A tabela a seguir apresenta os valores para cada tipo.

O feno tipo A é aquele produzido com a forrageira mais nova e cuja área não tenha sido pastejada anteriormente pelos animais e o processo de desidratação tenha ocorrido sem atraso, ainda sem tomar chuva após o corte. A umidade é menor que 15%. Portanto, apresenta maior valor nutritivo.

O tipo B é produzido com forragem mais passada, com maior quantidade de talo, ou chuva sofrida no pós-corte, seguido de uma desidratação rápida, ou elaborado com resíduo de áreas pastejadas. O valor nutritivo dessa classe de feno é mediano.

O feno tipo C é produzido por forragem passada do ponto ideal de corte, ou por receber diversas chuvas durante o período de desidratação, demorando a chegar ao ponto de enfardamento, apresentando grande perda de valor nutritivo. Esses podem ser fornecidos aos animais de baixa exigência nutricional ou mesmo utilizados como cama de baias.

Portanto, o valor de mercado decresce do tipo A para o tipo C. A medição da umidade pode ser realizada através de um medidor portátil.

Para evitar a perda do material, principalmente na época de chuvas, muitos produtores de feno estão também produzindo a silagem pré-secada, em que o capim, após o corte, é desidratado parcialmente, com 45 a 55% de umidade e depois embalado com filme plástico para que a condição interna seja de anaerobiose (ausência de oxigênio) e, portanto, haja uma fermentação similar à encontrada nos silos convencionais de milho, sorgo ou girassol, fazendo com que o material se conserve.

Os fardos produzidos são cilíndricos, com cerca de 400 a 600 kg.

Para produtores de feno, essa alternativa é bastante interessante do ponto de vista técnico, por permitir reduzir os riscos de incidência de chuvas sobre material cortado no campo durante a fase de secagem. Ese período fica restrito, dependendo das condições climáticas e das características morfológicas da planta forrageira, de 4 a 6 horas de duração.

Para uma melhor qualidade da silagem pré-secada, é recomendada a inoculação do material, durante o processo da elaboração do fardo. Para tanto, são acoplados inoculadores na própria enfardadora.

Portanto, a comercialização de volumosos pré-secados passa a ser uma opção bastante interessante para os produtores de feno, que reduz as perdas com chuva, utilizando muitos dos equipamentos empregados na fenação, sendo necessária apenas a aquisição de outros complementares.

A produção de feno em larga escala, seja para uso próprio ou para comercialização, é realizada com uso de equipamentos apropriados.

Geralmente, quando a produção destina- se à comercialização, os fardos são retangulares, de 10 a 15 kg, e estocados em barracões, pois é mais fácil o manuseio. Quando é para uso próprio, pode ser produzido em grandes fardos circulares, com 200 kg aproximadamente.

Fertilidade do solo

Sendo a pastagem destinada à fenação, uma cultura perene cuja implantação se faz uma única vez, a sua longevidade está relacionada unicamente ao manejo que será adotado. Áreas bem manejadas podem durar entre 20 e 30 anos.

Em locais destinados à fenação, os principais motivos de degradação da forrageira são o esgotamento da fertilidade do solo e a compactação do local, em função do tráfico intenso dos equipamentos.

Medidor de umidade de feno

Diferentemente de áreas pastoreadas, onde apenas cerca de 50% do que é produzido é consumido pelos animais, e ainda parte dos nutrientes é reciclada pelas fezes e urina, no processo de fenação a produção é totalmente removida do local, promovendo altas exportações de nutrientes do solo, que se não forem repostos vão gerar um rápido esgotamento da fertilidade. Segundo Corsi, para a produção de 20 ton/ha de feno, removem-se da área cerca de 300 kg de nitrogênio, 30 kg de fósforo e 500 kg de potássio, que devem ser repostos para a manutenção do stand e da produtividade.

No primeiro ano, após a implantação, após cada corte, deverá ser realizada uma adubação de cobertura, com aplicação de 150 kg do fertilizante 10-05-20 por ton produzida, ou 135 kg de 12-06-24/ton feno.

A partir do segundo ano, devem ser realizadas análises periódicas do solo para determinação da necessidade de calagem e nova adubação de reposição.

Outro fator fundamental para a manutenção da fertilidade é a compactação do solo, que ocorre no decorrer do tempo, em função do grande trânsito de máquinas que existe na área. Essa compactação limita o aprofundamento de raízes, reduz a infiltração e retenção de água, além de diminuir a eficiência das adubações.

Para eliminar a camada de compactação das áreas implantadas com forrageiras, como no caso das áreas de fenação, a melhor tecnologia existente é a operação de aerossolagem, que é realizada por um equipamento que perfura o solo em diversos pontos, sem danificar a forrageira implantada, nem provocando o levantamento de torrões que possam dificultar o processo de fenação.

Fardos retangulares ou circulares têm papel específico na elaboração do feno

Maquinário

A produção de feno é uma atividade com alto índice de mecanização, com utilização de equipamentos específicos para cada etapa do processo produtivo.

Quando se fala em fenação, logo se pensa na tríade de equipamentos: segadeira, enleiradeira e enfardadora. No entanto, o processo demanda de outros mais e a eficiência na utilização dos mesmos tem interferido na rentabilidade do negócio.

Os rendimentos operacionais levantados nas áreas produtivas apresentam variações extremamente altas, com produtores altamente eficientes, e outros com rendimentos operacionais muito abaixo do ótimo aceitável, tornando a atividade altamente onerosa, sem a percepção do produtor.

Ceifadora lateral de disco

Levantamentos realizados a campo mostram um rendimento operacional da sega (corte) de 2,1 ha/h até 0,29 ha/h, com diversos valores nessa faixa. Isso implica em uma variação de sete vezes entre o mais eficiente e o menos eficiente.

Na operação de revolvimento, a faixa varia de 5 ha/h até 1 ha/h. O revolvimento variou de 4,3 ha/h a 1 ha/h. O enfardamento de 2,7 a 0,29 ha/h.

Uma parte significativa dessa variação pode ser atribuída ao tipo de equipamento utilizado e também pelo tamanho da área trabalhada, onde áreas maiores exigem menos manobras de equipamentos e maior rendimento operacional. Outros pontos importantes são o tamanho das leiras e o próprio operador.

Porém, o ponto mais significativo levantado para essas diferenças é o treinamento de pessoal e a manutenção preventiva dos equipamentos, pois necessitam de constantes reparos durante as operações, e a não determinação pelo produtor dos seus rendimentos, para comparação do que é aceitável e buscas de metas de eficiência. Ou seja, muitos estão produzindo, porém, não sabem se estão sendo eficientes, também pode interferir no resultado

Revolvimento da massa cortada, cujo rendimento médio esperado é de 4,0 ha/h

Além do conjunto das três máquinas, a atividade também demanda uma adubadora, que pode ser pequena, ligada no hidráulico do trator, ou uma carreta calcareadora/ adubadora; um pulverizador para aplicação de herbicidas e controle de pragas, principalmente lagarta; o equipamento de aerossolagem para eliminar as compactações; as carretas de transporte para remoção da produção do campo; e uma esteira para facilitar o carregamento da produção nos caminhões e os próprios tratores.

Como a fenação é um processo intensivo e os equipamentos apresentam maior desgaste, a manutenção deles é comum e constante, sendo recomendada uma quantidade mínima de peças em estoque daquelas mais utilizadas e uma oficina básica na propriedade para evitar grandes interrupções nas operações. A produção de feno consiste em diversas etapas, com ações e equipamentos específicos.

Maquinários por etapa: corte, ceifa ou sega

É realizado mecanicamente através da ceifadora, tendo o cuidado de iniciar em períodos com baixa probabilidade de chuvas, para que seja possível a realização das operações subsequentes. O preparo adequado do solo, estando bem nivelado, é fundamental para evitar quebras de equipamento nessa operação.

Deve ser realizado pela manhã, após diminuição ou total desaparecimento do orvalho.

As ceifadoras mais utilizadas são as de discos, que podem ter acondicionamento do material ceifado, para acelerar o processo de desidratação da planta cortado, sendo útil em áreas com grande quantidade de massa de capim, principalmente com talos grossos. No entanto, esses condicionadores podem provocar perda do material ceifado.

Existem no mercado diversos modelos, conforme o tamanho da produção. Uma ceifadora de quatro discos faz de 1 a 2 ha/hora, conforme as condições de trabalho e do capim a ser cortado.

Após o corte, forma-se uma leira, que apresenta desuniformidade na secagem. Duas horas depois do corte, e de duas em duas horas, deve-se movimentar a massa cortada com ancinho, para que haja a desidratação mais rápida e de maneira uniforme.

Enleirador pode se apresentar em dois modelos: de molas (esquerda) e de barras (direita). O rendimento esperado é de de 3 a 4 ha/h

Desidratação

Com o objetivo de retirar o excesso de água do material original, reduzindo o seu teor de 65 a 85% para 12 a 15%, esse processo é altamente responsável pela qualidade do feno produzido.

O tempo necessário para a desidratação é influenciado diretamente pela quantidade de material produzido na área, pela espessura do colmo da planta cortada e pela temperatura ambiental, variando de um a três dias.

Para acelerar o processo de perda de água, deve-se realizar a movimentação da massa ceifada, através do equipamento enleirador/esparramador. As “reviragens” deverão ser realizadas a cada 2-3 horas para facilitar o processo de desidratação.

Existem diversos modelos no mercado, sendo que alguns são equipamentos destinados exclusivamente para esparramar o material, outros para enleirar e alguns podem ser utilizados para fazer as duas operações.

Enleiramento

Após o material atingir a umidade ideal, os equipamentos de enleiramento entram em ação. Eles irão formar as leiras para facilitar o trabalho das enfardadoras.

O principal ponto a ser observado é que se consiga juntar o máximo do material que foi ceifado e esparramado, reduzindo as perdas em função de restos de capim que ficam fora do canteiro e não são aproveitados no enfardamento.

Existem os equipamentos enleiradores de mola e os enleiradores de barras.

Diferenças entre os modelos que enfardam retangularmente e rolo

Enfardamento

A fase seguinte consiste em enfardar o material, com o objetivo de ser compactado, exigindo menos espaço para estocagem e facilitando o transporte.

As máquinas responsáveis por essa etapa são mais complexas, de maior valor e manutenção.

Produtores que produzem feno e silagem pré-secada utilizam as enfardadoras de feno redondo, pois são capazes de trabalharem com os dois tipos de produtos. Essas máquinas são mais rápidas e de menor manutenção.

As maiores produzem fardos de feno de 200 kg e rolos de silagem pré-secada com 400 kg, em média, com rendimento de 300 rolos/dia. Hoje, existem enfardadoras de rolo de tamanho médio, com produção de fardos de 50 kg e rolo de pré-secado de 120 kg, com rendimento de 400 fardos/dia. Embora também existam enfardadoras de rolos pequenos e grandes combinadas, essas são poucas utilizadas no Brasil. São destinadas aos produtores de grande escala.

As enfardadoras retangulares são as mais comumente utilizadas, principalmente quando a produção destina- se à comercialização, além de serem de menor custo de aquisição.

Remoção do campo

Um ponto muito importante no processo da fenação é a remoção da produção do campo para o local de armazenamento.

No caso de fardos retangulares, muitos produtores ainda deixam que os fardos prontos fiquem distribuídos no campo, sendo depois recolhidos manualmente em carretas para transporte a outro local.

Essa operação, além de onerosa, necessita de maior quantidade de mão de obra, é de baixa rentabilidade, deixando o produto exposto no campo, sujeito principalmente a ocorrências de chuvas no período de verão.

Existem outras possibilidades de agilizar esse processo. Alguns pecuaristas utilizam-se de uma estrutura acoplada na bica da enfardadora, que conduz os fardos produzidos até a carreta engatada na própria enfardadeira, ou em uma carreta lateral, tracionada por outro trator. Embora esse sistema seja eficiente, pois os fardos são recolhidos diretamente na carreta, conforme são produzidos, ele força a prensa da enfardadora, que além da compressão normal, tem de empurrar os demais fardos já prontos até a carreta.

Remoção manual e sistema de condução do fardo na carreta

Outro sistema é de um “lançador” também acoplado no final da bica, que independe da prensa. Quando o fardo sai da bica, o sistema “lança” o fardo para dentro da carreta que segue a enfardadora. A desvantagem desse sistema é que os fardos são lançados em velocidade, sendo que alguns deles desfazem-se ao cair na carreta.

Alguns produtores estão utilizando uma esteira portátil, que é tracionada por um trator independente, podendo ser autopropelida ou ser acionada pela tomada de força. Os fardos deixados no campo pela enfardadora são facilmente recolhidos na carreta. Uma vantagem desse processo é que trabalha independentemente da enfardadora.

No caso dos fardos redondos grandes, existem equipamentos específicos, em forma de carregadeiras, acoplados nos tratores, que manuseiam com grande facilidade, fazendo o carregamento nas carretas ou nos próprios caminhões que irão fazer a entrega do produto.

Lançador de fardo e esteira portátil. Avalie os prós e contras

Além do carregamento dos fardos no campo, a característica da carreta que os transporta é importante na eficiência da operação de remoção dos mesmos.

Alguns produtores ainda utilizam carretas agrícolas convencionais, que são altas do chão, pequenas em tamanho e com tampas laterais baixas, reduzindo a capacidade de carga de feno, com média de 200 fardos pequenos, além de dificultar o carregamento e a descarga, pela altura.

As carretas ideais devem possuir rodados baixos, para o assoalho ficar o mais próximo do chão; serem largas, compridas e com tampas laterais altas, e sem tampa no fundo, com alta capacidade de carga de feno, e facilidade de carregamento e descarga, com capacidade média de 450 fardos.

Comercialização

A venda de feno destina-se principalmente a proprietários de haras, hípicas, criadores de animais PO e centros de reprodução. Há no mercado a presença de atacadistas e distribuidores, que são compradores sistemáticos, sendo que, nesse caso, sempre há um desconto no preço ao redor de 25%.

Embora a comercialização do produto seja anual, há uma grande concentração no período de inverno (vide gráfico a seguir), quando há falta de volumoso de boa qualidade para fornecimento aos animais, havendo uma maior demanda por esse produto.

Carretas para transporte de feno, escolha a mais eficiente

Portanto, a melhor época de venda compreende os meses de julho a setembro, que corresponde a maior demanda e, portanto, maiores preços.

Também há uma sazonalidade na produção durante o ano, em decorrência do período de menor precipitação, favorecendo o processo de corte, desidratação e enfardamento. Na época chuvosa, compreendida entre janeiro e março, o trabalho é prejudicado, com perdas constantes da produção, relegando o produto à cama.

Para se ter ganhos na comercialização, a prática de estocagem é necessária, tanto para a produção na baixa, como para venda na alta, visto que produção e demanda acontecem em épocas diferentes. Sendo assim, o excedente do verão deverá ser estocado para uma comercialização com maior retorno financeiro em épocas de picos de demanda durante o inverno.

Distribuição, em %, da comercialização de feno

A produção de feno é uma atividade com uso intenso de mecanização, sendo que há diversos modelos de equipamentos disponíveis no mercado para atender necessidades específicas quanto à escala de produção e ao nível tecnológico. Ao iniciar a produção, é importante determinar se o produto visará ao consumo próprio ou à comercialização, para definir os modelos de equipamentos. A possibilidade de produção de silagem pré-secada agregada à produção de feno traz benefícios e menores perdas do material sob ocorrências de chuva. O sistema de transporte dos fardos do campo para o local de armazenamento deve ser planejado e a eficiência de cada operação deve ser sempre avaliada. Os campos de produção devem receber especial atenção quanto à adubação, para manter uma boa produtividade de capim. Dessa maneira, consegue- -se alta eficiência na atividade, com boa rentabilidade e permanência na atividade pecuária.

*Rodolpho Cyrineu é um engenheiro-agrônomo, consultor em pastagens e diretor da Suporte Rural Consultoria (Brasil) e AgroKamba Consultoria (Angola) - rodolfo@suporterural.com.br