Caindo na Braquiária

  

Alto grão para os continentais

Empunhando o catálogo de corte da central de sêmen preferida, Milton Fiori Jr, criador criterioso de Medeiros Neto, na Bahia, comumente adentrava ao meu escritório pedindo desconto, mas sempre em busca de sêmen do melhor touro Charolês para uso na sua estação de monta, não abrindo mão da raça, já que era um produtor de bois pesados e com alto rendimento de carcaça.

Já para atender Armando do Norte, via-me sempre desafiado em ter o máximo de informações possíveis de cada touro que eu ofereceria dentro do Red Angus, pois no pioneiro projeto do composto Red Norte, o que se procurava produzir era um animal sexualmente precoce, com carcaça equilibrada e pelagem o mais próxima possível de vermelho, coisa rara de se conseguir quando se cruza o Red com matrizes Zebu.

Havia também os apaixonados pelo Simental, onde o extremo Sul da Bahia recebia influência inconteste da família Fraga, criadora da raça há mais de 40 anos no Norte do Espírito Santo e que lapidou um bovino com as características de ganho do europeu, mas com certa adaptabilidade ao clima tropical da região.

Em 90% dos casos era assim, o criador já chegava com a raça escolhida, pedindo apenas recomendações de touros que atenderiam seus objetivos, nos quais o modelo de recria e engorda era e continua sendo um dos determinantes cruciais da raça a ser usada no cruzamento.

Há alguns anos nos habituamos a olhar para as raças continentais com descaso, encarando-as como simplesmente tardias, devido a sua seleção original ser direcionada a produzir carne em ambientes com dieta rica em grãos, resumindo nossas recomendações no uso da raça Angus quando a matriz fora zebuína.

Dessa forma, as raças continentais perderam espaço na pecuária nacional ao passo que o Angus seguiu seu caminho, encontrando a matriz com biótipo ideal para acasalar, gerando produtos com boa precocidade e que a pasto seriam abatidos dez meses mais cedo que o zebu, pesando 1@ a mais.

Hoje, pergunto se não é o caso de atualizarmos o software, visto que nossas decisões sobre o biótipo ideal a ser produzido devem ser pautadas no sistema de recria e engorda a ser adotado, bem como o uso ou não da fêmea cruzada como matriz de reposição, a fim de aproveitar a precocidade sexual, vantagem maior do cruzamento entre raças.

Não tenho dúvida sobre as vantagens do uso das raças britânicas no cruzamento com o zebu em vista da excelente complementariedade obtida nesse acasalamento, no entanto, dentro de uma visão holística da pecuária e do mercado, vimos com bons olhos a volta do uso do Simental e do Charolês americanos nessa matriz, pois o moderno modelo de engorda pós-desmama com a chamada “dieta de alto grão”, em que se administra apenas milho grão + um concentrado pronto de fábrica na proporção de 85% milho e 15% concentrado pronto, já se tornou uma prática comum nas agropecuárias que fazem o ciclo completo, buscando abater todos os machos da fazenda até os 13 meses.

Respaldo-me em experiência de campo com o Simental Preto e o Charolês, ambos de linhagem americana, sendo mochos de seleção, os quais vêm sendo utilizados por alguns criadores de duas formas: primeiramente sobre matrizes zebuínas no lugar do Angus, com o intuito de se fazer um superprecoce, cuja suplementação adequada no creep feeding requer muito menos esforço por parte da fazenda para se desmamar os machos com peso médio de 240 kg, jogando-os no cocho para obtenção de carcaças de 17@ aos 13 meses de idade. Outra forma de usá-los é sobre as vacas meio-sangue Angus, as quais somam no Brasil mais de 500.000 delas aptas a receber sêmen de uma terceira raça, procurando fazer um tricross de alto metabolismo e com carne ainda mais macia, sem gerar distocias na maternidade.

A produção do tricross do Simental/Angus/Nelore ou Charolês/Angus/Nelore superprecoce pode se tornar uma grande opção para o criador que reteve acertadamente suas novilhas meio-sangue, pois devemos considerar que o ganho médio diário de um biótipo continental após um certo período no cocho continua sendo na forma de musculosidade, podendo mantê-los nessa dieta por mais tempo, abatendo-os muito mais pesados a fim de se diluir os custos fixos da propriedade.

Por fim, devemos levar em conta os preços da terra e o sistema alimentar moderno para definir raças, mas de uma realidade não temos como fugir, teremos o uso futuro das pastagens caprichosamente manejadas e adubadas para a cria, onde os machos serão destinados ao cocho logo após a desmama e os pastos serão reservados para se produzir os bezerros tão almejados pelos criadores.

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br