Caindo na Braquiária

 

Bem treinados no campo

Ao final daquele primeiro dia de curso, Gustavo, eu e Guilherme trocávamos ideias sobre o aprendizado teórico da Inseminação Artificial naquele humilde e nem tão limpo quarto da pensão por nós escolhida para passar os cinco dias de treinamento em Sertãozinho/SP. Nos meus tenros 20 anos de idade, repleto de entusiasmo e com a cabeça fervilhando após os primeiros ensinamentos teóricos de reprodução, sentia que a partir daquele dia minha relação com a cria seria de total intimidade.

Quando pensamos em treinamento de inseminadores no campo, remonto à década de 1990 por mim vivenciada na área, relembrando a simplicidade dos nossos cursos de inseminação artificial dados nas propriedades do Extremo Sul da Bahia, onde Euclides Martins, zootecnista que assistia diversos criadores por aquelas paragens, era convocado para fazer uma reciclagem dos peões da fazenda, dos quais muitos deles eram até tratoristas e por que não dizer mulheres dos peões, que, na maioria das vezes, apresentavam índices de prenhez muito melhores que os homens, por se tratar de uma prática que o sucesso depende de paciência e atenção com os detalhes do processo.

Sempre atento às mudanças ocorridas na área reprodutiva, vejo que os criadores vêm perdendo o interesse em formar sua mão de obra própria, aumentando a cada dia a terceirização, contratando veterinários e técnicos que se responsabilizam totalmente pela reprodução de um rebanho matrizeiro. Tais profissionais contratados possuem equipes com inseminadores próprios aptos a depositar o sêmen dos melhores reprodutores do mundo no útero das matrizes selecionadas por eles através da palpação do aparelho reprodutivo.

Já nos grandes grupos de fazendas, onde a cria vem voltando com força total, observamos o uso de mão de obra própria para executar a inseminação, sendo que, na sua maioria, possui um inseminador experiente, formado nas escolas de inseminação tradicionais das centrais há mais de 20 anos, portanto, aptos ao processo de inseminação. No entanto, tais trabalhadores são despreparados para executar a Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF), processo de sincronização que usa protocolos hormonais nas fêmeas a fim de se eliminar a observação de cio feita duas vezes ao dia, prática que hoje se torna inviável pelas leis trabalhistas, que limitam o número de horas extras nas fazendas.

Mesmo assim, é de suma importância o treinamento da mão de obra inseminadora no campo, formando uma equipe comprometida com a fazenda e premiada por índices de desmama, quando, na pesagem da bezerrada, paga-se a premiação para todo o pessoal que lida com gado na fazenda.

Outro treinamento que vem fazendo parte do escopo das empresas de produtos veterinários diz respeito à capatazia, curso que vem se tornando uma importante ação das mesmas junto aos maiores clientes, fidelizando-os a seus produtos. Tais cursos ensinam desde contenção animal, passando por aplicação de medicamentos, manejo de maternidade e diagnósticos de enfermidades mais comuns até organização correta da farmácia da fazenda, sendo essa essencial para a formação de mão de obra adequada para se manter o melhor bem-estar animal possível.

Quaisquer treinamentos que se ministrem chegam ao campo em um momento importante da pecuária moderna, pois somente através de melhores práticas podemos formar mão de obra de qualidade na fazenda, mantendo os trabalhadores rurais no lugar que sempre desejaram. Devemos pensar em pagar melhores salários, com premiações gerais a toda a fazenda, dando condições dignas de moradia e treinando nossa equipe na medida em que demonstram comprometimento com nossa produção.

É assim que entregaremos leite e carne de altíssima qualidade, onde basta a indústria tratar os produtores com respeito, premiando o melhor leite, bem como o couro e a melhor carne de qualidade, produtos finais da nossa importante pecuária nacional.

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br