Do Pasto ao Prato

SISTEMA DE PRODUÇÃO DE TOUROS ANGUS: “IN ENGLISH” OU PORTUGUÊS?

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Recentemente foi publicado pela revista BEEF nos Estados Unidos uma listagem com os maiores vendedores de touros daquele país em 2014. Esse levantamento traz importantes informações sobre os mais influentes produtores americanos de genética. O tema me motivou a comparar as principais diferenças entre a produção de reprodutores Angus nos EUA e aqui. O ranking apresentado denomina- -se “Seedstock Beef 100” e nessa relação figuravam apenas rebanhos que venderam 200 ou mais touros no ano passado. Confira abaixo uma amostra dos top 25:

Fonte: “Seedstock Beef 100”, publicado pela Beef Magazine e adaptado pela Assessoria Agropecuária.

Nos últimos dez anos, tivemos a oportunidade de visitar mais de 100 rebanhos produtores de genética nos EUA e assim nos sentimos confortáveis para realizar algumas avaliações e comparações neste artigo.

O grande volume de touros vendidos por esses produtores ocorre em alguns rebanhos de Nelore no Brasil, porém, é uma situação muito diferente da nossa produção de taurinos (concentrada no Sul), pois produtores com mais de 400 touros vendidos por ano são muito poucos. A escala dos rebanhos e o volume de touros produzidos já figuram como diferenciais entre o “negócio touro” lá e cá. A figura dos “rebanhos cooperados” é uma das explicações para os grandes volumes de touros produzidos, pois é comum a ampliação da cria através de parceiros com Transferência de Embriões (TE) ou do preparo final de touros com parceiros confinadores. O sistema mais usual é realização de TE em rebanhos parceiros e a posterior compra de bezerros puros ao desmame. Dessa forma, um rebanho com 300 matrizes pode ofertar 500 ou mais touros anualmente.

As raças Angus e Red Angus somadas lideram a venda de reprodutores nos EUA. No levantamento da BEEF, Angus e/ou Red Angus estão presentes em 95 dos 104 rebanhos apresentados na lista TOP 100. Situação muito similar ocorre no Brasil para programas de cruzamento, pois a genética Angus e Red Angus lidera com grande vantagem nesse segmento, principalmente através de inseminação, mas também com o uso de touros em monta natural.

O uso da TE é aplicado para a máxima multiplicação de fêmeas superiores e normalmente esses nascimentos ocorrem em rebanhos parceiros, deixando o rebanho de seleção em condições regulares de reprodução para identificação das melhores matrizes e acasalamentos. No Brasil, o uso de TE (e FIV) é também muito frequente, porém, ocorre muitas vezes a substituição de matrizes puras em reprodução por um rebanho praticamente só de receptoras. Com o passar dos anos, muitos desses plantéis estão com alta participação de matrizes envelhecidas e com poucos avanços em melhoramento genético. Nesse item, vemos uma das diferenças mais marcantes entre o sistema de seleção americano e brasileiro.

A “pressão de seleção” (ou % de machos descartados) é uma diferença muito clara entre o realizado no Brasil e nos EUA. A cada safra de nascimentos em nosso país, um grande volume de machos registrados é descartado para engorda e o mesmo não ocorre nos selecionadores americanos, pois lá a porcentagem de descarte é muito baixa. Já está na cultura da maioria de nossos selecionadores que animais “negativos” (abaixo da média) devem ser descartados com os dados da avaliação de desmame ou ano e assim levamos ao mercado um alto percentual de animais superiores geneticamente. Nesse ponto muito importante, os selecionadores brasileiros estão fazendo muito bom trabalho, pois na grande maioria dos rebanhos é aplicado um bom nível de pressão de seleção (ou descarte de machos). De outra parte, o uso e a valorização dos Índices Técnicos e da Avaliação Genética (DEPs) estão bem mais avançados nos EUA do que aqui. Pode-se comentar que essa é uma posição válida em todas as situações relativas a dados objetivos de desempenho, desde índices de rebanho (% em relação aos contemporâneos, passando pelas DEPs de crescimento, dados de carcaça e até mesmo para marcadores moleculares ou informações de DEP Energia Metabólica e de eficiência alimentar). Observa-se, de forma geral, que os americanos incorporam as tecnologias auxiliares à seleção animal de forma gradual. Já por aqui, muito selecionadores apresentam ao mercado resultados de marcadores moleculares, porém, ainda sem possuir um programa básico de avaliação de desempenho do rebanho ou sem a participação em qualquer programa de melhoramento genético.

Os touros são vendidos nos EUA na maioria das vezes com um ano (entre 12 e 16 meses) e as fêmeas também entram em reprodução com essa mesma idade. Por aqui, o mais frequente é a venda de touros de dois anos e o entoure de suas irmãs na mesma idade. Essa situação traz grandes diferenças no giro do rebanho e na velocidade do melhoramento genético, pois o rebanho de cria “cresce” no sistema um ano e o intervalo entre gerações está praticamente no limite biológico dos bovinos. De outra parte, para que os animais sejam vendidos tão jovens, é necessário oferecer condições alimentares para ótimo desempenho (ganho de peso) e, assim, as diferenças individuais (genéticas) são mais evidentes. O uso massivo de touros jovens nos rebanhos de seleção é também um diferencial da pecuária americana e o mesmo ocorre ainda timidamente no Brasil, pois os reprodutores mais usados são aqueles mais “badalados” ou pais de grande campeões, ou seja, touros mais velhos. O uso limitado de touros jovens em rebanhos de seleção leva negativamente a um “freio” aos ganhos genéticos.

A seleção para “adaptação” ocorre nos rebanhos americanos e são buscados os animais mais eficientes para cada clima ou microclima do país, porém, essas condições são muito distintas das brasileiras, especialmente ao nosso sub- -trópico. A necessária seleção no Brasil para animais de “pelo fino”, com maior tolerância à combinação calor-umidade e com maior resistência a ectoparasitas (especialmente carrapatos) é um possível grande trunfo para a genética produzida aqui. Ainda nesse tema, o uso de touros nacionais é pequeno no Brasil (aproximadamente 30% na venda de sêmen) e deixamos de aproveitar o potencial de genética selecionada e adaptada em nossas condições de produção. Até mesmo para as Centrais de Inseminação o produto “touro nacional” pode ser uma boa alternativa de negócio em momentos de dólar alto.

Principais características da produção de touros ANGUS no Brasil e nos EUA:

Elaborado pela Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha

Como fechamento, fica evidente que existem grandes diferenças no sistema de produção de touros nos EUA e no Brasil.

As etapas já vividas pela pecuária americana e pelo segmento de genética é um grande benchmark disponível para os produtores de touros no Brasil, pois provavelmente enfrentaremos muitos degraus já passados pela cadeia da carne bovina americana. A necessidade de genética adaptada para as condições brasileiras e, especialmente, para máximo desempenho em programas de cruzamento é uma grande área de oportunidade para o segmento de genética brasileiro.