Entrevista do Mês

 

Sanidade garante o LUCRO

A saúde animal representa uma das menores parcelas nos custos totais de produção, entretanto, exerce papel fundamental para proteger o investimento do pecuarista. O Brasil possui programas oficiais de erradicação de febre aftosa, brucelose, tuberculose e raiva bovina, mas algumas doenças aumentaram sua importância econômica, a exemplo das reprodutivas e as clostridioses, que podem levar o animal acometido à morte. Para falar um pouco mais do setor, convidamos Ricardo Pinto, presidente do Sindicato Nacional da Indústrai de Produtos para Saúde Animal (Sindan).

Adilson Rodrigues adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Entre as cadeias de nutrição e sanidade, qual desses segmentos vem tendo maior atenção do pecuarista?
Ricardo Pinto –
Certamente podemos falar da sanidade animal, uma vez que tivemos a proibição inesperada das avermectinas de longa ação por meio da Instrução Normativa nº 13. Trata-se de uma medida que afeta a produção e a cadeia produtiva de proteína animal, tendo em vista que as avermectinas são produtos comprovadamente seguros e utilizados há mais de 20 anos no Brasil como forma de assegurar a produtividade do rebanho.

Revista AG - Qual foi o faturamento da indústria veterinária em 2014?
Ricardo Pinto -
Em 2014, com a estabilidade dos preços em alguns dos subsegmentos do setor, esperamos um crescimento entre 5 e 7%, atingindo um faturamento próximo a R$ 4,5 bilhões, e o mesmo se repetindo em 2015.

Revista AG - Como a proibição das avermectinas de longa ação impactou esse número? A situação não deve mudar em 2015?
Ricardo Pinto -
A proibição impactou enormemente o mercado de ruminantes no ano de 2014. Em 2015, esse cenário deve mudar devido ao trabalho realizado pelas entidades que representam a cadeia produtiva da carne bovina. Entendemos que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) tem recebido todo o suporte técnico e científico para que, com segurança, autorize o retorno da comercialização dessa categoria de produtos.

Revista AG - Algumas doenças ganharam maior relevância devido ao impacto econômico que geram na rentabilidade da propriedade. Hoje, quais enfermidades mereceriam maior atenção do criador? As clostridioses e as doenças reprodutivas estão nesse grupo?
Ricardo Pinto -
As clostridioses e as doenças reprodutivas são extremamente importantes; entretanto, devemos lembrar que as enfermidades que possuem programas oficiais de erradicação ou controle pelo Mapa, tais como raiva, brucelose e febre aftosa, devem ser prioridade em toda a avaliação sanitária que se faça no território brasileiro ou no rebanho.

Revista AG - Em relação ao último grupo, qual o maior problema? Talvez a “perda invisível”?
Ricardo Pinto -
Com relação às doenças reprodutivas, elas realmente são de extrema importância pela dificuldade de diagnosticar, assim como as verminoses e ectoparasitas, que causam prejuízo de maneira silenciosa na fase inicial da criação.

Revista AG - Esse último setor, em especial, passa por grande evolução, pois já existem vacinas que proporcionam imunidade fetal. Quais seriam as doenças que já contam com essa tecnologia?
Ricardo Pinto -
É uma tecnologia em início e com franca condição de expansão, devido à eficiência e praticidade. Alguns laboratórios já estão introduzindo produtos comercialmente.

Revista AG - Um velho inimigo da pecuária brasileira é a febre aftosa. Estamos vencendo a guerra?
Ricardo Pinto -
A imunização em 2014 foi bastante promissora. Foram 180 milhões de doses distribuídas, o que equivale a 900 mil litros de vacina contra aftosa. O Sindan e suas empresas associadas também colaboram no cumprimento da meta de vacinação do Programa Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA) por meio da doação de cerca de 200 mil doses a regiões carentes. As doações são coordenadas pelo Fonesa e pelo Fórum Nacional Permanente da Pecuária de Corte. Temos um caminho a percorrer, mas estamos na direção certa. Acreditamos que a vacinação ainda é o meio mais efetivo para a manutenção do status sanitário brasileiro.

Revista AG - E como estão os avanços no controle da brucelose e da raiva bovina no Brasil?
Ricardo Pinto -
Entendemos que, em nível nacional, o programa continua nas bases de 130 milhões de doses de vacina contra a raiva e de 20 a 25 milhões de vacinas contra brucelose comercializadas anualmente. Apesar de todo esse volume, alguns estados estão executando ações adicionais visando à melhoria do controle dessas enfermidades.

Revista AG - Outro grande problema do mercado veterinário é a pirataria dos produtos. Qual é a situação atual?
Ricardo Pinto – Estimamos que a pirataria de produtos de uso veterinário gera altos prejuízos (cerca de R$ 600 milhões) em toda a cadeia de proteína animal. A comercialização de produtos falsificados tem impacto na produtividade do rebanho, que depende de produtos seguros e eficazes, licenciados no Mapa.

Revista AG - Em contrapartida, o Sindan lançou uma campanha antipirataria. Cresce a adesão e o alcance?
Ricardo Pinto -
A Campanha Antipirataria de Produtos Veterinários foi lançada em setembro com o apoio de 15 entidades. Com a divulgação e a apresentação do projeto em diversas reuniões, atualmente temos 26 entidades parceiras em todo o Brasil, inclusive aquelas orientadas ao profissional da medicina-veterinária e animais de estimação. Acreditamos que esse número pode aumentar. Se todos pudermos unir forças, poderemos combater a pirataria de produtos veterinários com grande efetividade.

Revista AG - Quais áreas serão trabalhadas em um primeiro momento?
Ricardo Pinto -
Estamos preocupados com a conscientização da cadeia produtiva sobre os males causados pelos produtos veterinários ilegais. Os malefícios desses produtos atingem não apenas o rebanho, que sofre com um tratamento ineficaz que prejudica o bem-estar animal, mas principalmente o produtor, que depende da produtividade do seu plantel para obtenção de renda e desenvolvimento do seu negócio de forma segura.

Revista AG - Em relação ao produtor, ele compra produto pirata para “economizar” no preço ou realmente é levado a crer que o produto é original?
Ricardo Pinto -
Na maioria das vezes, o produtor não consegue avaliar corretamente se o produto é pirata ou legal. Enfatizamos que o produtor precisa ser cuidadoso ao adquirir produtos para o seu rebanho, verificando na embalagem do produto informações como o número de registro no Mapa, CNPJ do laboratório e, caso desconfie, consulte o Compêndio de Produtos Veterinários no site da campanha (http://denuncieprodvetpirata. org.br/). O compêndio é a maneira mais segura de verificar se o produto veterinário é licenciado.

Revista AG - Quais os riscos ao se usar medicamentos piratas no rebanho?
Ricardo Pinto -
A falsificação de produtos veterinários expõe animais e a sociedade a altos riscos sanitários. O rendimento do rebanho tende a cair, uma vez que não se sabe os efeitos e não há controle de qualidade sobre os produtos piratas. O uso de medicamentos piratas também potencializa a resistência de doenças e não gera resultado econômico ao produtor, além de expor ao risco a saúde do consumidor. A carne e o leite dos animais que utilizam esses produtos podem provocar danos à segurança dos alimentos, prejudicar a imagem do país e até representar o fechamento de importantes mercados ao Brasil.

Revista AG - Tivemos acesso a uma informação que apenas 40% das ivermectinas comercializadas são licenciadas. A campanha deve ajudar a reduzir esse percentual?
Ricardo Pinto -
Podemos afirmar que um dos principais objetivos da campanha é conscientizar o produtor sobre os riscos do produto pirata e as consequências de utilizar tais produtos, tanto do ponto de vista da produção quanto do ponto de vista jurídico e social. Combater a pirataria é missão de todos e isso vai levar a uma diminuição dos produtos ilegais. O Sindan entende que tem um papel a cumprir na defesa do bem-estar animal e na valorização das empresas que passam por um processo rigoroso de análise e aprovação dos seus produtos veterinários junto ao Mapa.